Serjão e o novo Grito da Independência

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A perseguição ao cantor e ídolo nacional Sérgio Reis é um sinal evidente da guerra dos donos do poder contra o povo brasileiro

“Além disso, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é honroso, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e observastes em mim, isto praticai, e o Deus da paz estará convosco.”
(Filipenses 4, 8-9)


Era 13 de março de 2020, o primeiro dia oficial da pandemia. Naquela sexta-feira, tive a honra de ser recebido em casa por um dos maiores ídolos populares do Brasil, o cantor Sérgio Reis. Serjão mora em um sítio na Serra da Cantareira, em Mairiporã, município da Grande São Paulo. A Cantareira é uma espécie de oásis milagrosamente situado nas proximidades da metrópole; ali a Mata Atlântica apresenta uma imensa riqueza de fauna e flora. Da janela de casa, os moradores locais podem ver macacos, macucos, bichos-preguiças, veados-mateiros, caxinguelês, quatis, gatos-do-mato, saguis-da-serra, jaguatiricas e até onças pardas. É uma região de montanhas, vales, mirantes, lagos, rios e riachos ― às portas da Pauliceia Desvairada.

Foi nesse lugar que os agentes da Polícia Federal estiveram hoje, a mando do ministro Alexandre de Moraes.

Aos 81 anos, Sérgio Reis não mora ali por acaso. A Cantareira representa um elo entre a sua cidade natal, São Paulo, e o Brasil do interior, que ele soube retratar como ninguém em canções eternas como “Menino da Porteira”, “Chico Mineiro”, “Saudades da Minha Terra”, “Casinha Branca”, “Chalana” e a épica “Poeira”.

Nascido em 23 de junho de 1940, Sérgio Bavini iniciou sua trajetória musical nos anos 60. O primeiro grande sucesso foi “Coração de Papel”, um verdadeiro hino da Jovem Guarda. Mas a canção que o tornou celebridade nacional foi “Menino da Porteira”, gravada em 1973.

Toda vez que eu viajava pela estrada de Ouro Fino
De longe eu avistava a figura de um menino
Que corria abrir a porteira e depois vinha me pedindo
Toque o berrante, seu moço, que é pra eu ficar ouvindo


Quem nunca ouviu esses versos cantados não pode dizer que é brasileiro. Na figura do boiadeiro andante pelo interior do país, temos uma poderosa imagem simbólica do nosso povo. Um povo que trabalha com afinco, sofre com as asperezas da vida, sente saudade e jamais perde a esperança, mesmo diante da tragédia.

Fizemos a última viagem
Foi lá pro sertão de Goiás
Fui eu e o Chico Mineiro
Também foi o capataz
Viajamos muitos dias pra chegar em Ouro Fino
Aonde passamos a noite numa festa do Divino

As canções de Sérgio Reis o tornaram uma personalidade amada em todo o Brasil ― há meio século ele é celebrado por onde passa. Seus shows reúnem pessoas de diferentes gerações, profissões e classes sociais ― gente que decora (ou seja, guarda no coração) um repertório que vai do amor à saudade, da luta pela sobrevivência à contemplação da natureza, do riso às lágrimas, da cidade ao sertão. Serjão, assim como Dom Quixote, sabe quem é ele mesmo:


Poeira entra em meus olhos, não fico zangado não
Pois sei que quando eu morrer meu corpo vai para o chão
Se transformar em poeira, poeira vermelha, poeira
Poeira do meu sertão

Aos sete anos, Sérgio ganhou do pai uma pequena viola que guarda até hoje.  No tampo da violinha, há um curioso autógrafo riscado com prego pelos seus ídolos de infância, Tonico e Tinoco. Imagino que os agentes enviados por Alexandre de Moraes, no dia de hoje, não tenham se interessado pelo velho instrumento, tampouco tenham apreendido a viola que pertenceu a Teddy Vieira, compositor do “Menino da Porteira”. Quando estiveram na casa de Bernardo Küster, em maio do ano passado, os agentes da PF levaram um disco rígido que continha fotos e lembranças de sua falecida mãe; espero que não tenham levado nenhuma lembrança do Serjão.


No caminho desta vida muito espinho eu encontrei
Mas nenhum calou mais fundo do que isto que eu passei
Na minha viagem de volta qualquer coisa eu cismei
Vendo a porteira fechada, o menino não avistei


Sérgio Reis sempre semeou alegria, simpatia e virtude por todos os lugares ― até mesmo durante seu único mandato na Câmara Federal, entre 2014 e 2018. Foi nessa época que ele se tornou amigo de um colega parlamentar chamado Jair Messias Bolsonaro. A empatia entre os dois foi imediata. “O Bolsonaro é igual a mim: ele fala a verdade. Por isso ele foi eleito e por isso ele é tão perseguido.”

Agora, quem está sendo perseguido é você, Serjão. Perseguido por falar aquilo que a maioria esmagadora do povo pensa sobre o STF. É certo que suas palavras, ditas numa mensagem particular, foram muito mais amenas que as falas de inúmeros líderes e militantes esquerdistas ao longo dos últimos 20 anos. Mas a elite política brasileira é assim: da mesma forma como jamais compreenderão a beleza de suas canções, esses vampiros do poder agora querem impedi-lo de mostrar a realidade que salta aos olhos: estamos sob uma ditadura. A perseguição a você é um sinal evidente da guerra do sistema contra o povo brasileiro.

Nós entendemos perfeitamente a sua mensagem, Serjão. Que venha o Dia da Independência.


De alegria eu chorei
E olhei pro céu
Obrigado, meu Senhor
A recompensa já chegou

Fonte: Brasil Sem Medo

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