Santa Teresa do Menino Jesus: Mestre de seu temperamento

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Seus devotos se multiplicaram à medida que milagres eram realizados e favores concedidos por sua intercessão

Em 30 de setembro de 1897, uma freira de 24 anos morreu no Convento Carmelita em Lisieux, França. Ela havia feito tão pouco em sua vida que uma das irmãs observou que era encantadora, entretanto o que mais a Madre Superiora escreveria sobre ela ao morrer no relatório que faria para a comunidade?

A questão é divertida para nós agora. A fama dessa jovem freira se espalharia além do convento e por toda a Igreja com uma velocidade notável. Um ano após sua morte, sua autobiografia, “A História de Uma Alma”, foi publicada. Seus devotos se multiplicaram à medida que milagres eram realizados e favores concedidos por sua intercessão.

Durante a Primeira Guerra Mundial, os pilotos franceses levaram uma foto dela em seus aviões para protegê-los. Em menos de 30 anos, em abril de 1923, o papa Bento XV a declarou Bem Aventurada e, em 1925, Pio XI a canonizou e nomeou seu dia de festa em 3 de outubro. São Pio X chamou Santa Teresa de Jesus como um dos maiores santos dos tempos modernos. Em menos de um século, ela se tornou um dos santos mais populares do mundo. Um rosto que revela um grande autodomínio.

Há uma iconografia popular que representa Santa Teresa em estátuas e quadros com lábios de rubi, bochechas rosadas e uma expressão de piedade sentimental e doçura sanguínea em seu rosto. Não sou fã dessa escola de arte que representa os santos como figuras de contos de fadas sem personalidade. Para conhecer Santa Teresa, é melhor contemplar sua verdadeira face, pois temos a sorte de ter muitas fotos dela. Quando sua irmã Celine entrou no Carmelo de Lisieux em 1894, ela trouxe sua câmera e equipamento fotográfico. Embora a câmera tenha sido banida em muitos conventos da época como frívola, Celine foi autorizada a seguir o hobby, e hoje temos as 41 fotos em que Santa Teresa figurava, sozinha ou em grupo.  

O que o rosto da verdadeira Teresa revela? É uma fisionomia delicada, mas forte, docemente serena, mas intensamente reflexiva, um rosto marcado pela aceitação tranquila do sofrimento e da vida da Cruz. Há o queixo forte, os lábios firmes, com um toque de sorriso, um olhar que nada perdeu da inocência infantil e, ao mesmo tempo, revela uma pessoa que vê o mundo sem superficialidade ou otimismo. Na face real de Santa Teresa, vê-se uma alma de caráter e o domínio de si mesmo, de um santo.

Auto-mortificação: os meios de auto-domínio

Olhando para o seu sorriso doce, é difícil acreditar que foi um sorriso suado que apenas um grande autodomínio se manteve através das pequenas irritações e grandes sofrimentos que ela sofreu em sua curta vida. Vale a pena fazer uma pausa aqui, porque esse tipo de autodomínio, conquistado pela mortificação da vontade de alguém, é exatamente o oposto do que o mundo moderno defende. De várias maneiras, somos levados a acreditar que a mulher forte e bem-sucedida é aquela que consegue o que quer, que faz uma carreira impressionante, que controla todas as situações. Santa Teresa ensina algo diferente. “Escrever livros de devoção, compor a poesia mais sublime é menos valioso que o menor ato de renúncia”, escreveu ela. O fato de ela ter aprendido o valor de pequenos atos de auto-mortificação desde que era jovem é evidente em toda a sua biografia.

Por exemplo, quando ela tinha dez anos, seu pai ofereceu aulas de pintura à Celine e depois se virou para Teresa para perguntar se ela também gostaria. Antes que ela pudesse responder sim, sua irmã Marie observou que Teresa não tinha o mesmo presente que Celine. Ela se conteve e permaneceu calada, oferecendo seu grande desejo de lições como sacrifício. Mais tarde, em sua autobiografia, ela comentou: “Ainda me pergunto como tive coragem de permanecer em silêncio”. Ela manteve esse espírito em seus anos no Carmelo. Na lavanderia do convento de Lisieux, por exemplo, ela trabalhava ao lado de uma irmã que lhe espirrava água suja enquanto lavava os lenços. Ela se absteve de inclinar-se a retroceder e enxugar o rosto para mostrar à Irmã o quanto isso a irritava. Isso pode parecer muito pequeno, mas a vontade própria deve ser tão negada e restringida em coisas pequenas quanto em grandes, e às vezes mais quando se opõem a vocação. Santa Teresa explicou este “Caminho” com simplicidade e franqueza:

“Longe de ser como as grandes almas que, desde a infância, praticam todo tipo de macerações, fiz com que minha mortificação consistisse apenas na quebra de minha vontade, restringindo uma palavra precipitada, prestando pequenos serviços àqueles que estavam ao meu redor, e milhares de outras coisas desse tipo.”

O comportamento externo influencia o interior. Na face de Santa Teresa, seus lábios estão no caminho de quem está acostumada a vigiar a si mesma, a sorrir quando “se sente” irritado ou triste, por não se permitir ser o escravo de humores ou fantasias passageiras. Com ela, aprendemos uma lição importante, hoje muitas vezes ignorada pelos pais ou professores – a importância do comportamento externo como um meio de controlar o interior.

Ela costumava dizer as noviças que, por respeito aos anjos, devemos sempre nos portar com dignidade. Ela não suportava ver a menor contração em seus rostos, como franzir a testa. Ela lhes disse: “O rosto reflete a alma. Por isso, deve ser sempre calmo e sereno. Isso vale mesmo quando você está sozinha, porque você está sempre à vista de Deus e de seus anjos.” Em sua História de uma alma, Santa Teresa explicou como criou o hábito de controlar seu humor:

“Quando coisas irritáveis ou desagradáveis acontecem comigo, em vez de assumir um ar de tristeza, respondo com um sorriso. No começo, nem sempre tive sucesso, mas agora é um hábito que estou muito feliz por ter adquirido”.

Foi esse hábito que a tornou capaz de manter um comportamento pacífico, mesmo durante os horríveis sofrimentos físicos e as terríveis tentações contra a Fé no final de sua vida. Sua expressão era tão serena que uma Irmã duvidou de seu sofrimento durante a doença e a confrontou, perguntando-lhe como poderia manter a expressão de alegria em seu rosto, se estivesse sofrendo tanto. “É por causa da dor muito aguda que estou sentindo”, respondeu Teresa. “Eu sempre me esforcei para amar o sofrimento, pequeno e grande, e para recebê-lo cordialmente.”

Confiança, a arma para combater o desânimo

Alguém pode se perguntar: Santa Teresa nunca se desencorajou por suas pequenas falhas e incapacidade de fazer as grandes coisas que desejava pelo amor de Deus? De fato, Teresa tinha por seu temperamento uma tendência natural ao desânimo. O fato de ela ter reconhecido essa disposição é evidente na primeira das três resoluções que tomou no dia da Primeira Comunhão: “Não desanimarei”.

 No Carmelo, ela escreveu uma linda oração para uma noviça sobre humildade. Nela, ela disse que acordaria de manhã com uma forte determinação de conquistar seu orgulho; à noite, ela desanimaria sabendo que havia falhado. Então ela percebeu que esse desânimo em si era apenas uma forma de orgulho, e isso a deixaria mais desanimada. É o círculo vicioso que muitos de nós já experimentamos. Santa Teresa explica como o dilema foi resolvido:

“Desde que me foi dado entender o amor do Coração de Jesus, reconheço que ele expulsou todo o meu desânimo. A lembrança de minhas falhas me humilha e me exorta a nunca depender de minhas próprias forças, que nada mais são do que fraquezas. Ainda mais essa lembrança me fala de misericórdia e amor. Quando, com toda a confiança filial, lançamos nossas falhas na fornalha devoradora do amor, como elas não devem ser totalmente consumidas?”

Foi apenas a confiança que conseguiu vencer o desânimo e a melancolia: “O que ofende a Jesus, o que O machuca no coração”, insistiu ela para as noviças, “é a falta de confiança”. Ela não permitiu que essa confiança na misericórdia divina e na bondade de Deus permitisse qualquer tipo de passividade na batalha diária. Uma vez que uma noviça estava chorando, sua falta de coragem. Santa Teresa a repreendeu pelo espírito que se apoia no “sentimento” do momento:

“Onde estaria o seu mérito se você lutasse apenas quando sentisse coragem? O que importa se você não tem nenhuma, desde que aja como se a tivesse! Se você se sente com preguiça de pegar um pouco de linha e, mesmo assim, faz isso pelo amor de Jesus, tem mais mérito do que uma grande conquista realizada em um momento de fervor”.

A confiança na misericórdia e bondade de Deus não nos exime da obrigação de travar as batalhas diárias contra nossos defeitos. Mas, ao travar essas batalhas, Santa Teresa encontrou seu apoio: “É a confiança, e somente a confiança, que deve nos levar ao amor”. Ela costumava dizer que não era por ter sido preservada do pecado mortal que tinha tanta confiança. Mesmo que ela tivesse “cometido todos os crimes possíveis”, ela disse, teria a mesma confiança. Ela sentiria que toda essa massa de pecados seria como uma gota de água jogada em um forno em chamas. Porque, se soubermos sitiar Seu Coração, insistiu ela, nós O cegaremos às nossas lamentáveis deficiências. Se fizermos tudo o que pudermos, disse ela, e oferecer isso ao bom Deus, em Sua justiça e amor, Ele suprirá o resto.

“Meu caminho é toda confiança e amor”, afirmou Santa Teresa, dizendo-nos algo que precisamos ouvir repetidas vezes, que nunca podemos ter muita confiança na bondade de Deus. Como Santa Teresa, não devemos temer nestes dias difíceis pedir tudo a Nossa Senhora: que ela nos permita servi-la na defesa da Causa Católica, que sejamos santos, que a Igreja seja restaurada, que venha o Seu Reino, para que Seu Imaculado Coração seja vitorioso.

Por: Marian T. Horvat, Ph.D.

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