Regicídio infantil e a revista jacobin

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foto:: Três dos filhos Romanov.

“Jacobin tornou-se nos últimos cinco anos a principal voz intelectual da esquerda americana”

Você pode não ter ouvido falar da revista Jacobin. É uma revista intelectual da esquerda socialista democrática – não da esquerda liberal, mas da esquerda socialista democrática. Foi fundada em 2010 por Bhaskar Sunkara, um estudante universitário radical nascido e criado no subúrbio de Nova York

De um perfil Vox 2016 dele:

Jacobin tornou-se nos últimos cinco anos a principal voz intelectual da esquerda americana, a publicação socialista mais vibrante e relevante em muito tempo. E em 2016 está maior do que nunca, graças a Bernie Sanders, que está deixando seus milhões de apoiadores curiosos sobre o que o socialismo democrático realmente significa. Essa é uma oportunidade que Jacobin está aproveitando com grande efeito, mesmo que Sanders não seja radical o suficiente para seu gosto.

A campanha de Sanders “poderia começar a legitimar a palavra ‘socialista’ e desencadear uma conversa em torno dela, mesmo que o socialismo do “welfare-state” de Sanders não vá longe o suficiente”, escreveu Sunkara no início deste ano.

Mais:

Jacobin, que fez 5 anos este ano, é talvez a publicação mais relevante e importante da esquerda política americana hoje. Ao contrário de outras revistas acadêmicas, é sempre oportuna, globalmente orientada e temática eclética.

E:

Sunkara explicitamente não quer seguir uma linha. Em vez disso, ele me diz, ele desenha uma “caixa”. A revista não vai defender as coletivizações de Stalin ou o Grande Salto para a Frente de Mao ou qualquer outro aspecto do “comunismo realmente existente”, mas fora isso, Jacobin é muito acolhedora. É um lugar onde social-democratas e socialistas democráticos e trotskistas e comunistas de conselho e chavistas e até mesmo liberais podem coexistir.

Essa dinâmica é muito mais fácil de fomentar agora que a Guerra Fria acabou. Quando a URSS ainda existia e a China ainda era significativamente socialista, havia todos os tipos de linhas de fratura ao longo das quais os movimentos socialistas poderiam se fragmentar, porque havia muitas nações socialistas tomando decisões importantes que certamente provocariam polêmica. Você está do lado de Trotsky ou de Stalin? Você está do lado de Khrushchev na cisão sino-soviética ou de Mao? Você endossa a invasão soviética da Hungria em 1956 ou apoia os trabalhadores Húngaros? Você apenas se opõe à Guerra do Vietnã ou apóia ativamente a Frente de Libertação Nacional?

A distância dessa história permite que a Jacobin promova um tipo muito diferente de socialismo sem ser excessivamente defensivo sobre o passado ou sentir a necessidade de repreender os que estão à sua esquerda por serem insuficientemente anticomunistas ou pró-americanos. Essa distância histórica talvez seja também a razão pela qual os jovens são tão receptivos à ideia de socialismo hoje.

Certo, então dê uma olhada no que o editor fundador de Jacobin postou no Twitter (e depois excluiu) outro dia:

A questão não é o que nós achamos que a jústiça demanda. Eu acho que matar as criancinhas Romanov foi justo. Mas não é de surpreender que esses pontos de vista são controversos dada a estrutura ética e moral da maioria das pessoas 

Sério? Aqui, do grande livro do historiador Robert Massie “Nicholas and Alexandra” está como as crianças Romanov, seus pais, e um punhado de servos, foram assassinados no porão da Casa Ipatiev em Yekaterinburg:

    Nicolas pediu cadeiras para que sua mulher e seu filho pudessem se sentar enquanto esperavam. Yurovsky ordenou que trouxessem três cadeiras e Alessandra pegou uma. Nicolas pegou outra, usando seu braço e ombro para dar apoio para Alexis, que estava deitado na terceira cadeira. Atrás de sua mãe, estavam as quatro meninas, o doutor Botkin, o criado Trupp, o cozinheiro, Karitonov, e a criada da Emperatriz, Demidova. Demidova estava carregando dois travesseiros, dos quais um ela tinha colocado nas costas da emperatriz. O outro travesseiro, ela apertava fortemente. Destro estava a caixa contendo a coleção de joias da imperatriz.

     Quando todos tinham sido chamados, Yurovsky entrou na saleta, seguido por seu esquadrão Cheka, carregando revolveres. Ele deu um passo á frente e disse, rapidamente, “suas relações tem tentado te salvar, mas eles falharam, e nós precisamos matar vocês.”

     Nicolas, com seu braço ainda abraçando Alexis, começou a se levantar de sua cadeira, para proteger sua mulher e seu filho. Ele apenas teve tempo de dizer “O Que…?” Antes de Yourovsky apontar seu revolver para a cabeça deu Tzar e atirar. Nicolas morreu instantaneamênte. A esse sinal, todo o pelotão começou a atirar. Alessandra apenas teve tempo de levantar sua mão, e fazer o sinal da cruz, antes de ela ser morta por uma bala. Olga, Tatiana, e Marie, foram atingidas e morreram rápido. Botkin, Kharitonov, e Trupp também morreram na chuva de projéteis. Deminova, a criada, sobreviveu  a primeira leva, e, em vez de recarregar, os carrascos pegaram rifles no quarto ao lado, e atacaram ela, apunhalando-a com as baionetas. Gritando, correndo de um lado para o outro da parede como um animal encurralado, ela tentava expulsa-los com seu travesseiro. Por fim, ela caiu, apunhalada mais de trinta vezes. O cachorro, Jimmy, foi morto com sua cabeça esmagada pela coronha de um rifle. A saleta, cheia com a fumaça e o cheiro da pólvora, ficou silenciosa por um momento. Sangue estava correndo como que em pequenos riachos dos corpos mortos. E então se ouviu movimento, e um baixo murmúrio. Alexis, no chão, se esforçava para abraçar o pai. Brutalmente, um doe carrascos chutou o pequeno Tzar na cabeça. Yourovsky então deu dois tiros na orelha do menino. Naquele momento, Anastásia, que tinha apenas desmaiado, acordou e começou a gritar. Com baionetas e coronhas, o grupo inteiro se virou contra ela. Logo, ela também jazia morta no chão. Estava acabado

O editor fundador da principal voz intelectual da esquerda americana acredita que isso foi justo. Esse é quem ele é. Isso é quem eles são.

Outra postagem, hoje, desta vez da conta da revista (também foi excluída):

O muro era sem duvida feio, e de partir o coração. Mas a estabilidade política e econômica que ele assegurou também deu à RDA a chance de construir uma sociedade que era vastamente caracterizada pela sociedade modesta e igualdade social de classes e gêneros.

Excerto do livro “Aqui Está a Historia”:

“O Muro era feio, ameaçador e, para muitos cidadãos, sem dúvida de partir o coração. Mas a estabilidade econômica e geopolítica que garantiu também deu à RDA a chance de construir uma sociedade amplamente caracterizada por uma prosperidade modesta e igualdade social entre classes e gêneros. Os trabalhadores tinham garantia de emprego, moradia e creche durante todo o dia, enquanto alimentos básicos e outros bens eram fortemente subsidiados. Embora os salários fossem apenas metade do que eram no Ocidente, ajustados pelos preços em relação aos ganhos, o poder de compra real dos trabalhadores da RDA era mais ou menos o mesmo. Esse fato, combinado com a falta crônica de certos bens de consumo, ensinou os cidadãos a confiarem uns nos outros e se ajudarem em momentos de necessidade – uma realidade que ainda ressoa hoje em pesquisas que mostram que os orientais são consideravelmente mais sensíveis à desigualdade social e à importância da solidariedade.

O fato de que as pessoas eram pobres e mesmo com o dinheiro que conseguiam não tinham nada para comprar – ei, isso as tornava mais carinhosas umas com as outras. Alguns eram tão atenciosos que informavam discretamente a Stasi quando seus vizinhos, amigos, até mesmo em alguns casos seus cônjuges, deixavam de amar Big Bruder. Do “Washington Post”:

A polícia secreta, ou Stasi, trabalhava com cerca de 190.000 informantes secretos em meio período e empregou mais 90.000 policiais em tempo integral – no total, mais de um em cada 50 alemães orientais adultos em 1990. Alemães orientais que ousaram criticar seu governo – mesmo para um cônjuge, um melhor amigo ou um pastor – podiam acabar desaparecendo no sistema penal por anos.

Então, Jacobin. Vamos lembrar esta linha do perfil Vox:

A distância dessa história [a Guerra Fria] permite que a jacobin promova um tipo muito diferente de socialismo sem ser excessivamente defensivo sobre o passado ou sentir necessidade de repreender os que estão à sua esquerda por serem insuficientemente anticomunistas ou pró-americanos.

Eles estão contando com uma geração que nunca aprendeu o que realmente significava o comunismo existente. Significou assassinato em massa. Significava campos de concentração. Significava muros e vigilância constante. Do meu livro Live Not By Lies:

Recentemente, uma mulher californiana de 26 anos, de olhos brilhantes e alegre, disse-me que se considera uma comunista. “É tão lindo, esse sonho de todos serem iguais,” ela falou com entusiasmo. Quando ela me perguntou no que eu estava trabalhando, contei-lhe sobre as lutas de Alexander Ogorodnikov, um dissidente cristão preso e torturado pelos soviéticos, que entrevistei recentemente em Moscou. Ela ficou em silêncio.

“Você não sabe sobre o gulag?” Eu perguntei, ingenuamente.

Claro que ela não sabia. Ninguém nunca disse a ela. Nós, seus pais e avós, falhamos com sua geração. E se não desenvolver nenhuma curiosidade sobre o passado, ela falhará consigo mesma.

Ela não está sozinha. Todos os anos, a Victims of Communism Memorial Foundation, uma organização educacional e de pesquisa sem fins lucrativos estabelecida pelo Congresso dos Estados Unidos, realiza uma pesquisa com americanos para determinar suas atitudes em relação ao comunismo, ao socialismo e ao marxismo em geral. Em 2019, a pesquisa descobriu que um número surpreendente de americanos das gerações pós-Guerra Fria têm visões favoráveis ​​do radicalismo de esquerda e apenas 57 por cento da geração do milênio acredita que a Declaração da Independência oferece uma garantia melhor de “liberdade e igualdade” do que o Manifesto Comunista. A religião política que matou dezenas de milhões, encarcerou e torturou incontáveis ​​mais e empobreceu a vida de metade da humanidade em seu tempo, e a derrota da qual exigiu uma luta agonizante de aliados através das fronteiras, oceanos, partidos políticos e gerações – essa odiosa ideologia é romantizada por jovens ignorantes.

Escrevendo no The Harvard Crimson em 2017, a estudante Laura Nicolae, cujos pais sofreram os horrores do comunismo romeno, denunciou a falsificação da história que seus colegas Ivy Leaguers recebem, tanto nas aulas quanto no marxismo da cultura estudantil intelectual.

“As representações do comunismo na universidade pintam a ideologia como revolucionária ou idealista, ignorando sua violência autoritária”, escreve ela. “Em vez de aprofundar nossa compreensão do mundo, a experiência da faculdade nos ensina a reduzir uma das ideologias mais destrutivas da história humana a uma narrativa unidimensional e higienizada.”

Esquecer as atrocidades do comunismo já é ruim o suficiente. O que é ainda mais perigoso é o hábito de esquecer o passado. O romancista tcheco Milan Kundera observa secamente que ninguém hoje defenderá gulags, mas o mundo continua cheio de otários para as falsas promessas utópicas que dão origem aos gulags.

Ainda hoje eu estava conversando com um leitor deste blog que falou sobre seus alunos que estão entrando na militância. Ele disse que agora entende por que Dostoiévski descreveu os jovens radicais da década de 1860 como “possuídos”. Esse esquerdismo de identidade-política tomou conta de suas mentes, e nada mais importa. O professor disse que alguns deles – crianças que ele conhecia antes de se tornarem militantes, e com quem se dava bem – agora olham para ele com ódio desumano.

É o tipo de ódio que pode justificar matar crianças pelo bem da revolução. E um dia, vai.

Fonte: theamericanconservative.com

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