Quem ganha com a crise por causa do novo coronavírus?

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Foto: Governo do Estado de São Paulo/Divulgação

Artigo escrito por J. R. Guzzo, publicado originalmente na Revista Oeste

Pode não ser algo conveniente de se dizer neste momento, em que as qualidades do ser humano, o seu caráter e o seu equilíbrio político passaram, subitamente, a ser julgadas por um novo metro: ou você está entre os que defendem as medidas mais extremistas para combater a epidemia do coronavírus, e por isso é louvado como um patriota em odor de santidade, ou é um canalha. (Pode ser também um psicopata, um irresponsável, ou qualquer sinônimo de pessoa abjeta – faça a sua escolha.)

É realmente uma coisa extraordinária, mas é assim que está sendo: defender a racionalidade, ou simplesmente pedir que alguém pense, virou um quase-crime de lesa-pátria, ou coisa pior. Paciência: ficou desse jeito, e pode levar muito tempo para que mude.

A afirmação inconveniente citada no início é a seguinte: a repressão, cada vez mais totalitária, contra qualquer possibilidade de contágio, mesmo remota ou imaginária, está destruindo a economia do Brasil – e há, sim, muita gente empenhada em tirar proveito político disso. Não importa, aqui, adivinhar intenções – intenções dificilmente podem ser provadas. O que importa é o que uma pessoa faz, e não o que ela pretende, ou diz pretender. O que governadores como João Doria, de São Paulo, mais uma manada de colegas de cargo, prefeitos, autoridades de todos os tipos e seja lá quem ocupe a posição de decidir alguma coisa estão fazendo é criar uma recessão econômica-monstro – algo padrão Dilma, ou pior.

As ações para fechar à força a indústria, o comércio e os serviços de São Paulo, numa escala e com uma brutalidade nunca vistas antes, não podem, obviamente, ficar restritas à cidade e ao Estado. Elas vão atingir diretamente a economia do país como um todo, pois a maior parte do Brasil não consegue funcionar com São Paulo desligado.

A estimativa séria para o crescimento do PIB brasileiro em 2020, antes do coronavírus, era de 2%, um resultado já bem ordinário e que não faz ninguém enriquecer. Depois do atraso natural trazido pela epidemia, os cálculos mudaram para recessão – teríamos um PIB negativo, de menos 2%, este ano. Com as medidas de terra arrasada decretadas por Doria, sem qualquer base científica séria, sem estatísticas, sem qualquer tentativa de pensar no desastre humano que estava criando, essa recessão pode virar catástrofe – uma queda de menos 3,5% a até menos 4%.

Foto: Carolina Antunes/PR

Esses números de calamidade, com a consequente e inevitável destruição de empregos, de carreiras, de sonhos, de empresas e todas as desgraças que vêm junto, são uma sinfonia para os ouvidos do governador Doria – e de todos os que, como ele, estão de olho nas eleições presidenciais de 2022. Mais que música, é a sua única esperança de salvação. Uma crise econômica tamanho gigante, até agora, é a única coisa que pode derrotar Jair Bolsonaro em 2022; há bem poucas dúvidas quanto a isso, mesmo porque ele não tem um único adversário decente em termos eleitorais.

É óbvio que Doria, e outros que pescam nesse mesmo pesqueiro, sabem que não dá para manter o Brasil fechado durante os próximos três anos e meio – eles nem têm força para isso. Mas quanto mais estrago se produzir agora, e quanto mais durarem os seus efeitos, mais a economia e a população serão castigadas – e mais difícil será para o presidente se recuperar depois do vírus e contar com uma situação econômica arrumada, o grande trunfo que poderá ter em 2022.

O governador, e quem mais está jogando esse jogo, dizem que “não querem” isso. E daí? Quem é que está ligando para o que eles querem ou não querem? O que importa é o resultado concreto que estão causando. Esse resultado é arruinar o país.

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