Qual é a maior força que existe sobre o homem?

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padrepauloricardo.org

O Doutor Angélico responde

Costumava ser realizado pelas universidades medievais, duas vezes ao ano, na época da Páscoa e do Natal, um exercício acadêmico chamado Quaestiones Quodlibetales.

Sob a coordenação de um moderador, um mestre deveria responder às questões propostas pelos alunos, que poderiam partir de quem quer que fosse e versar sobre qualquer tema de Teologia, filosofia ou ciências afins, em qualquer ordem. Daí o nome de Quaestiones Quodlibetales que tal exercício recebia, pois Quodlibet em latim significa qualquer que seja.

As Quodlibetales em que participou Tomás de Aquino tornaram-se famosas; eram anotadas e posteriormente foram reunidas em uma obra com este nome. Manuscritos das questões quodlibetales em que Tomás de Aquino participou se espalharam pelas bibliotecas da Europa.

Ora, sucedeu que em uma destas quodlibetales levantou-se um aluno e perguntou a Tomás o seguinte:

“Mestre, o que é mais forte: o rei, a verdade, o vinho, ou as mulheres?

Pois no IIIº Livro de Esdras, (um apócrifo do Velho Testamento), está escrito: `Não é grande a verdade, e mais forte do que tudo?’

No entanto, o vinho altera completamente o homem, e o rei consegue obrigá-lo a expor-se até ao perigo de morte, que é, entre todas as coisas, o que há de mais difícil. E as mulheres, então? Pois estas conseguem dominar até os reis” .

À primeira vista, uma pergunta como esta parece mais uma brincadeira do que algo para ser levado a sério. Mas, a julgar pelo que a História nos reporta sobre Tomás de Aquino, em vez de tomá-la por brincadeira, logo de partida ele deve ter-se surpreendido pela seriedade com que lhe pareceu ter sido formulada a questão.

Respondeu, então, o seguinte:

“Nesta questão que nos é proposta pelos jovens deve-se considerar primeiro que estas quatro coisas, isto é, o vinho, o rei, as mulheres e a verdade, não são comparáveis segundo si mesmas, pois não são todas de um único gênero. Todavia, poderemos compará-las se as considerarmos segundo sua concorrência sobre um mesmo efeito, isto é, o coração do homem.

Consideremos no homem, em primeiro lugar, o apetite concupiscível, relacionado com o desejo venéreo. Sobre ele, enquanto tal, age a mulher. Segundo um determinado aspecto, portanto na medida em que age sobre o concupiscível, a mulher é a maior força que existe sobre o homem.

Consideremos porém, em segundo lugar, o apetite irascível, relacionado com o temor da morte. Sobre ele, enquanto tal, age o rei, através de seu exército. Segundo um determinado aspecto, portanto, na medida em que age sobre o irascível, o rei é a maior força que existe sobre o homem.

Consideremos, em terceiro lugar, a imaginação. Sobre ela age, enquanto tal, o vinho, pelo seu efeito embriagante. Segundo um determinado aspecto, portanto, na medida em que age sobre a imaginação, o vinho é a maior força que existe sobre o homem.

Consideremos, em quarto lugar, a potência intelectiva, cujo bem, enquanto tal, é a verdade. Segundo um determinado aspecto, isto é, na medida em que é o bem e a perfeição da inteligência, a verdade é a maior força que existe sobre o homem.

Considerando, porém, que o homem é por natureza um animal racional, em que todas as potências se ordenam a uma submissão à inteligência, as corporais se submetendo às animais e estas às intelectuais, deve-se dizer que, não sob um determinado aspecto, mas simplesmente falando, a verdade é a maior força que existe sobre o homem.

Fonte: cristianismo.org.br

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