Por que Deus homem precisou ser morto para que a humanidade fosse salva do pecado?

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Perguntaram inúmeras vezes a Santo Anselmo o motivo pelo qual Deus precisou tomar nossa natureza humana para nos salvar do pecado. Eis a sua explicação:

Primeiramente é necessário entender o que é o pecado.

Se o anjo ou o homem sempre dessem a Deus o que lhe é devido, nunca pecariam. Pecar nada mais é do que não dar a Deus o que lhe é devido, isto é, toda a vontade da criatura racional sujeita à vontade de Deus.

Para ficar mais claro, imagine uma mãe que dá a vida ao seu filho. Ela o conhece muito, cuidou dele desde que nasceu. Hoje ele tem sete anos e tudo o que o manda fazer é para seu bem, porque o ama. Seu filho com sete anos não tem a experiência da mãe, é por isso que ao obedecê-la, ao conformar a sua vontade com a vontade de sua mãe, estará, provavelmente, acertando. A diferença entre essa mãe e Deus, é que Deus nos ama muito mais do que a nossa mãe, e Ele não erra, nunca! Porque é perfeito.

Por ter nos criado, por nos amar incondicionalmente e por ser perfeito, nos manda aquilo que devemos fazer se queremos acertar ou, em outras palavras, sermos felizes para sempre. Na maior parte das vezes, assim como acontece com uma criança diante de uma ordem de sua mãe, não conseguimos enxergar o bem enquanto tal. E geralmente depois que crescemos vemos que o que a nossa mãe nos mandava era exatamente aquilo que deveria ser feito. No início da vida espiritual, assim como crianças, não conseguimos discernir sempre o que é bem e o que é mal, é por isso que devemos obedecer a Deus sem hesitar. Com o tempo, com esforço e ajuda da graça, continuaremos obedecendo, mas percebendo cada vez mais as razões pelas quais obedecemos, não só enxergando, mas amando.

Nesse sentido, toda criatura racional que não entrega a Deus toda a vontade, tira d’Ele o que lhe é devido e o desonra, isto é pecar. E, enquanto não devolver o que é devido, permanece em culpa.

Retornando ao exemplo da mãe, quando um filho a desobedece não dá aquilo que lhe é devido, a obediência. E enquanto não lhe obedecer, ou seja, lhe dar aquilo que lhe é devido por ser a sua mãe, permanece em culpa.

No entanto, não é suficiente devolver o que lhe foi tirado. Pela injúria feita, diz Santo Anselmo, sempre deve-se devolver mais do que se tirou.

Assim, não é suficiente para quem lesa a saúde do outro devolver lhe saúde porque deve também, pela dor imposta, recompensar lhe com algo mais. Do mesmo modo não é suficiente para quem viola a honra de alguém que lhe devolva a honra, já que deve também, de acordo com o dano que lhe causou, restituir-lhe algo a mais que seja de seu agrado.

Mas com que poderás restituir a Deus pelo teu pecado?

Arrependimento, um coração contrito e humilhado, abstinências, trabalhos corporais, misericórdia no dar e no perdoar e obediência? Isso tudo já devemos a Deus mesmo antes de pecarmos. Então, o que daremos em recompensa a Deus por termos pecado?

Ninguém conseguirá recompensar o pecado cometido, por menor que seja, a não ser quem puder recompensar a Deus pelo pecado do homem com algo que seja maior do que tudo o que não é Deus. Ora, ninguém, porém, está acima de tudo o que não é Deus senão Deus.

Portanto, não poderá satisfazer pelo pecado do homem ninguém, senão só Deus. Mas também não o poderá fazer, se não for homem, caso contrário não será o homem que dará a satisfação.

É necessário, portanto, que essa satisfação venha do Deus homem.

Apenas Deus homem pode dar algo que recompense a Deus pelo nosso pecado. Não fosse isso, permaneceríamos em culpa.

Jesus Cristo, nosso redentor

A razão, portanto, nos ensina que quem satisfará pelo pecado do homem deve possuir algo maior do que tudo o que há debaixo de Deus, e que o dê espontaneamente, e não por uma obrigação. Deverá se pôr a si mesmo para a honra de Deus, ou algo de si mesmo que de algum modo já não o devesse a Deus.

Se, porém, o Filho de Deus der a sua vida a Deus, ou se se oferecer à morte para a honra de Deus, isto Deus não o exigiria dele, porque a morte entrou no mundo pelo pecado, e o Deus homem não tendo pecado, não seria obrigado a morrer.

É fácil também ver que a morte deste homem é maior do que tudo aquilo que há ou pode haver no mundo.

Considera que se alguém te dissesse:

“Se não matares este homem,
perecerá todo este mundo
e tudo o que não é Deus”
.

Deverias matá-lo para conservar todas as demais criaturas? Não o farias, certamente, mesmo que te mostrassem um número infinito de criaturas. E se te dissessem:

“Ou o matas,
ou todos os pecados do mundo
cairão sobre a tua alma”?

Deverias responder que mais preferirias que caíssem sobre a tua alma todos os pecados não só deste mundo, como de todos os que existiram e de todos os que existirão, do que matar a este homem.

Mas por que esta é a resposta que deverias dar, senão porque a vida deste homem, ou mesmo uma sua pequena lesão, vale mais do que todos os pecados do mundo? De onde que se segue que esta vida é mais amável do que são odiáveis todos os pecados.

Não vês que um bem tão amável pode ser suficiente para pagar o que é devido pelos pecados de todo o mundo?

Na verdade, o pode mais ao infinito. Vê-se, portanto, como esta vida pode vencer todos os pecados, se por eles for entregue.

Se, porém, o Filho de Deus oferecer espontaneamente a Deus um dom tão grande assim, não é justo que fique sem retribuição. Mas o que lhe será dado que com Deus já não o tivesse, ou o que se lhe será perdoado, se nada devia? Antes que o Filho oferecesse sua vida ao Pai, tudo o que era do Pai também era seu, e nunca deveu nada que pudesse ter que lhe ser perdoado.

Vê-se, assim, por um lado, a necessidade de ser recompensado, e por outro, a impossibilidade de se o fazer.

Mas se o Filho quisesse o que a si é devido, dá-lo a outrem, poderia o Pai proibir-lhO?

Mas a quem mais convenientemente atribuiria o fruto e a retribuição de sua morte senão àqueles por quem se fez homem para os salvar e aos quais morrendo deu o exemplo de morrer pela justiça? Inutilmente seriam seus imitadores, se não pudessem ser partícipes de seus méritos.

Ou a quem mais justamente faria herdeiros da dívida, da qual ele não necessita, e da exuberância de sua plenitude, do que aos seus pais e irmãos? Nada mais racional, nada mais doce, nada mais desejável o mundo jamais poderá ouvir. É evidente que Deus jamais rejeitará a nenhum homem que dele se aproxime sob a tutela de seu nome. Verdadeiramente quem sobre este fundamento edifica, está alicerçado sobre uma rocha firme.

Quem poderá conceber uma misericórdia maior do que o pecador, condenado ao eterno tormento, sem ter como redimir-se, ao qual Deus Pai se dirige e lhe diz:

“Aceita o meu Filho Unigênito,
e ele te redimirá?”

E o próprio Filho:

“Toma-me contigo,
e redime-te?”

Pois é de fato isto o que dizem, quando nos chamam à fé cristã e a ela nos trazem.

A explicação completa de Santo Anselmo sobre o motivo pelo qual Deus precisou tomar nossa natureza humana para nos salvar do pecado encontra-se aqui.

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