Pais noruegueses perdem guarda dos filhos por serem “muito cristãos”

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Acusados de “radicalismo e doutrinação cristã”, Ruth e Marius Bodnariu foram afastados dos seus cinco filhos pelo departamento de “proteção à infância” do país

Em um ato flagrante de abuso de poder, em 2015 o governo da Noruega tomou cinco crianças de sua família, depois de os seus pais serem acusados de “radicalismo e doutrinação cristã“. Ruth e Marius Bodnariu ficaram 210 dias sem os filhos – dois meninos, duas meninas e um bebê, ainda em fase de amamentação –, que foram transferidos a diferentes lares adotivos, por decisão do Barnevernet, o departamento de “proteção à infância” da Noruega. Uma petição online pedindo o retorno das crianças à sua família foi assinada por mais de 35 mil pessoas.

De acordo com Daniel Bodnariu, irmão de Marius, toda a confusão começou com uma denúncia “feita pela diretora da escola onde as meninas estavam”. As acusações – que ele revela em uma página do Facebook criada justamente para esse propósito – são estarrecedoras:

“A diretora chamou o Barnevernet expressando ‘preocupações’: as meninas contaram-lhe que estavam sendo disciplinadas em casa. Na sua mensagem, ela também disse que os pais são fiéis cristãos, ‘muito cristãos’, e que a avó tem uma forte convicção de que Deus castiga o pecado, o que, na opinião dela, cria uma inabilidade nas crianças. De acordo com a declaração da diretora, os tios e tias das meninas compartilham da mesma crença. A denúncia também diz que, ainda que as garotas sejam notáveis por seus bons resultados na escola e que a diretora não acredite que elas sejam abusadas fisicamente em casa, ela acha que os pais precisam de ‘ajuda’ e orientação do Barnevernet para criar os seus filhos.”

Depois da queixa da escola, todas as coisas aconteceram muito rápido.

No dia 16 de novembro de 2015, as duas filhas mais velhas, Eliana e Naomi, foram literalmente “raptadas” da escola, sem o conhecimento dos pais. O Barnevernet ainda foi à casa da família, levou embora Matthew e John – sem nenhum mandado judicial –, e conduziu Ruth e o bebê para a delegacia. Marius, que estava no trabalho, também foi levado para um interrogatório. Depois de várias horas, o casal foi autorizado a voltar para casa, mas somente com Ezekiel, o filho de três meses.

No dia seguinte, porém, os agentes do Estado voltaram à casa dos Bodnariu e levaram também o bebê de três meses. A alegação era de que a mãe se tratava de uma pessoa “perigosa”. Na mesma hora, a mãe foi avisada de que seus outros quatro filhos tinham sido colocados em diferentes casas adotivas e que já teriam se adaptado ao lugar, não sentindo mais a falta dos pais (!).

Depois de consultar um advogado, o casal obteve acesso ao documento com as acusações legais preenchidas contra eles. Entre outras coisas, havia a denúncia de que os pais e avós da família eram “cristãos radicais” e que estavam “doutrinando os filhos”.

“O que eles não entendem é por que os seus filhos foram tirados de si sem serem previamente alertados”, explica Daniel, no Facebook. “Por que foram tratados como criminosos ou maus pais – como os adictos em drogas e alcóolatras? Por que lhe estão sendo negados os seus direitos como pais, que deveriam prevalecer contra qualquer direito que o Estado possa presumir?”

Não é a primeira vez que o departamento de “proteção à infância” da Noruega é acusado de intrometer-se indevidamente na vida das famílias, com alguns líderes políticos chegando a qualificar o Barnevernet de “nazista”. Diante de episódios como esses, é realmente difícil não evocar as cruéis imagens dos regimes totalitários do século XX, que, detendo a “fórmula” de uma sociedade perfeita, tentaram impô-la a todo o custo, desprezando as instituições e os direitos mais elementares dos indivíduos.

No rol desses “princípios inegociáveis” – os quais, longe de serem meramente religiosos, constituem normas de direito natural –, o Papa Bento XVI não se cansava de elencar a “tutela do direito dos pais de educar os próprios filhos”. A Igreja leva tão a sério essa verdade, que Santo Tomás de Aquino, ainda na Idade Média, condenava que se ministrasse o batismo a filhos de pais judios, reconhecendo que as crianças “estão sob o cuidado dos pais segundo o direito natural”. São os pais, portanto, que devem formar os próprios filhos, cabendo ao Estado um papel simplesmente subsidiário, alternativo, nesse processo. Daqui o problema do slogan “Pátria Educadora”. A Educadora por excelência é a família, não o Estado.

Na verdade, o caso da família Bodnariu revela um drama crescente nos países nórdicos, dominados por um secularismo anticristão agressivo e por um Estado cada vez maior e mais autoritário. Na Suécia, por exemplo, as crianças não são mais criadas por um pai e uma mãe, mas por “funcionários públicos” das “creches do Estado”. Lá, assim como em outros lugares dominados por uma ferrenha engenharia social, a “Pátria Educadora”, mais que um projeto, é já uma triste realidade.

Tragicamente, a ascensão e fortalecimento da educação estatal é acompanhada por uma crise familiar praticamente sem precedentes na história humana. Com a ausência da figura paterna e as mulheres cada vez mais fora de casa, os filhos vão sendo empurrados para escanteio. Como alertou o Papa Franciscoos pais e as mães “se auto-exilaram da educação dos próprios filhos” e, por outro lado, “multiplicaram-se os assim chamados ‘especialistas’, que passaram a ocupar o papel dos pais até nos aspectos mais íntimos da educação”. Também a “cultura da morte” se alimenta de tudo isso. Sem o profundo desprezo de nossos contemporâneos pela paternidade, de fato, dificilmente seria possível falar de uma “indústria” em torno da prática do aborto e dos métodos anticoncepcionais.

A todo esse show de horrores se juntam o ódio e a intolerância flagrantes à religião cristã. Nunca se ouviu falar tanto de “liberdade” – as pessoas “são livres” para fumar maconha, para ter sexo com quem quiserem, para matar os próprios filhos, para dizer que homem e mulher são meras “construções sociais” – e, no entanto, quando uma família decide ensinar aos seus membros as verdades da fé cristã – ou simplesmente que “Deus castiga o pecado” –, o Estado rouba-lhes os filhos. Há liberdade para tudo, menos para ser cristão. Não se pode dizer que Deus castiga, se não quem castiga é o Estado.

“Há muitos casos de abuso dentro das famílias”, reconhece Daniel Bodnariu. “Obviamente, esses casos devem ser punidos. Mas é uma enorme responsabilidade ser capaz de discernir quando realmente há ou não um abuso, porque, ao não fazer isso apropriadamente, você pode destruir uma família”.

É o que está acontecendo com os Bodnariu, na Noruega, e é o que pode acontecer em todo o globo, caso os pais não despertem com urgência para o seu imperativo – e intransferível! – dever de educar os próprios filhos. Só isso pode dar jeito à farsa totalitária da “Pátria Educadora”.

Depois de mais de 200 dias separada, a família Bodnariu finalmente foi reunida de volta, no dia 14 de junho de 2016. Tudo indica que, agora, eles estejam vivendo na Romênia (país natal de Marius), longe das intervenções totalitárias do departamento de “proteção à infância” da Noruega.

fonte: Equipe Christo Nihil Praeponere

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