Os incendiários da Igreja, de ontem e de hoje

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Um amigo me enviou o artigo de Víctor Codina, padre jesuíta espanhol e teólogo da corrente da Teologia da Libertação, cuja tradução para o português foi publicada no site Unisinos. O seu título: “Quando acabar a pandemia, não voltemos a restaurar a Igreja sacramentalista do passado.”

Bastou a simples leitura de alguns parágrafos deste artigo, para um sentimento doloroso e indignado bramir em meu peito: Socorro! Socorro! Roubaram a minha Igreja! Quero a minha Igreja Católica de volta!

Minha dor veio desse fato: o articulista não demonstra tristeza pelas tribulações da Igreja durante a pandemia. Para ele, é ocasião propícia para a substituição da estrutura bimilenar por outra realidade eclesial muito diferente. Mas o dano é de tal monta, por atingir locais e pessoas por toda a face da terra, que a dor lancinante me afligiu ainda mais. Com efeito, se o coronavírus pode matar os corpos, o acelerado processo de autodemolição da Igreja é muito mais grave, por repercutir nas almas e nelas matar a vida da fé. Por isso bradei novamente: Socorro! Socorro! Estão matando a vida da fé nas almas! Quero a minha Igreja Católica de volta!

Víctor Codina causa assombro! Coloca um problema e apresenta sua solução. O problema: o coronavírus provocou o fechamento das igrejas. Qual a solução que aponta? As residências dos leigos se tornam igrejas particulares e os mesmos saem às ruas como protagonistas de uma nova igreja evangelizadora. Ora, isto supõe uma destruição, para haver depois a construção de uma coisa nova, não a reconstrução do que antes havia. E o teólogo assusta por candidamente propor e luvar essa destruição!

Segundo Codina, talvez muitos creiam que esse fechamento das igrejas foi somente um parêntese pastoral e que logo se voltará à situação de antes. Outros, como ele mesmo, pensam que este é um tempo favorável e de graça, um kairós, um sinal dos tempos, em que Deus nos quer revelar algo. O que Deus quer nos dizer? Simplesmente isto: o Espírito nos convida a “passar de uma Igreja sacramentalista e clerical a uma Igreja evangelizadora”. É a solução que o teólogo preconiza, cujo custo é a destruição do modelo de Igreja estabelecido há dois mil anos e a sua quase transformação numa espécie de ONG que oferece serviços de solidariedade religiosa.

Como se sabe, as bênçãos Urbi et Orbi de Francisco deste ano foram dadas com a Praça e a Basílica de São Pedro vazias. E as celebrações litúrgicas da Quaresma e Semana Santa foram muito pobres e sem o acompanhamento presencial dos fiéis. Mas a visão de viés progressista de Codina o faz considerar que foi uma “Semana Santa extremamente profunda e rica”, quando se sabe que não foi real, foi virtual e midiática. Conforme Codina , “viveu-se de perto a paixão do Senhor na paixão e sofrimento dos doentes” e na solidariedade prestadas às vítimas da epidemia.

Codina continua a fazer a propaganda da nova Igreja: “Os protagonistas desta Semana Santa não foram os padres, nem mesmo suas transmissões midiáticas, mas sim as famílias, leigos e leigas, jovens… Promoveu-se uma Igreja doméstica na qual os leigos são protagonistas.”. Desse modo o padre Codina apela para o suposto sacerdócio dos fiéis desenvolvido na igreja doméstica. Ora, no lar apenas há leigos reunidos numa família católica, ali não há nenhum templo erguido, nenhum bispo ou sacerdote exerce nesse local o seu ministério. Transferido o protagonismo para os leigos, a omissão do clero em prestar socorro às almas durante a pandemia desse modo é justificada.

O padre Codina louva a passagem de uma Igreja sacramentalista e clerical para uma Igreja solidária, laical, evangelizadora, que não faz nenhum proselitismo. Este seria o impulso dado pelo “Espírito”. Não se trata do Espírito Santo, mas de um sentimento interior que move as pessoas de qualquer religião para o divino. Na verdade, o padre Codina prega uma nova religião e com isso rouba dos fiéis a sua Igreja tradicional, clerical, com seus sete sacramentos e o auxílio que presta à salvação de suas almas. Esse sacerdote que durante décadas esteve a serviço da teologia da libertação sul-americana não é contra os sacramentos; muito hábil, propõe uma nova eclesiologia e uma pastoral voltada para os pobres e marginalizados, explorando a luta de classes de sabor marxista entre ricos e pobres, opressores e oprimidos, dentro da Igreja Católica.

Para afirmar melhor seu pensamento, o padre Codina recorda um fato que aconteceu com o cardeal Jorge Bergoglio no pré-conclave de 2013. Bergoglio fez uma intervenção sobre a sua visão pessoal a respeito da missão da Igreja no tempo presente. O cardeal cubano Ortega depois lhe pediu o texto dessas palavras e o divulgou. Entre outras coisas disse então o futuro Papa Francisco sobre o que entende por evangelização: “A Igreja é chamada a sair de si mesma e ir para as periferias, não apenas geográficas, mas também as periferias existenciais: as do mistério do pecado, da dor, das injustiças, das ignorâncias e recusa religiosa, do pensamento, de toda miséria.”. É a “Igreja em saída” para as periferias, que cheira à ovelha, hospital de campanha.

Mas o que acontece na realidade durante o curso da pandemia do COVID-19? As pessoas com muito medo se trancam em suas casas e não saem às ruas para evangelizar, como alega o autor do artigo. A sensação dos fiéis é a de que a Igreja se fechou em si mesma e os privou da missa e dos sacramentos numa hora de grande aflição. Quem hoje faz a leitura dessa intervenção de Bergoglio no pré-conclave, fica com a impressão, à vista dos fatos atuais, que se tratou de discurso de campanha eleitoral. Todavia, se o projeto de evangelização fracassou, o de autodemolição prosperou.

Para edulcorar a proposta sinistra que apresenta, Víctor Codina recorre ao poeta catalão Joan Maragall que assistiu a uma missa numa igreja incendiada durante a Semana Trágica de Barcelona, em 1909. Nesta ocasião houve revolta social com cunho anticlerical: igrejas, conventos, escolas, cerca de 80 edifícios religiosos, foram incendiados. O escritor catalão escreve um artigo a respeito dessa missa, na qual diz que se sentiu penetrado por uma virtude nova e atual, como só poderiam tê-la experimentado os primeiros cristãos perseguidos e escondidos nas catacumbas. Para o poeta revolucionário, o interior da igreja representa a burguesia que a construiu e a frequenta. Lá fora passa o povo revoltado que a incendiou. Suas palavras são carregadas do ódio de classes revolucionárias.

Com efeito, Joan Maragall conclui seu famoso artigo La Iglesia Cremada dizendo que não se deve tirar novamente os pobres da igreja reconstruindo-a; deve ser deixada fumegante, miserável, abandonada pelos ricos; os pobres então virão e vão refazê-la.

Víctor Codina faz um paralelo da “Igreja em saída” com a igreja incendiada e sem portas de Barcelona. E conclama: quando acabar a pandemia, “não voltemos a restaurar a Igreja sacramentalista do passado”, e “saíamos à rua para evangelizar, sem proselitismos”. Nessa nova Igreja a comunidade cristã “realiza a partilha do pão e os demais sacramentos”.

Estranha religiosidade essa, dos que se sentem penetrados “por uma virtude nova e atual” à vista das cinzas das igrejas queimadas. Assim pensam e assim agem os incendiários da Igreja, os de ontem e os de hoje.

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