Olavistas ideológicos x Militares positivistas e tecnocratas

0
Foto: Marcos Corrêa/PR / Divulgação

O primeiro ano do governo Bolsonaro não foi como um voo de brigadeiro em dia radioso e sereno. Transcorreu com sucessos e turbulências, vitórias e derrotas. Faz parte do enredo o embate travado entre os olavistas e os militares.

À primeira vista ambas as correntes são ideológicas. De um lado, o relevante contributo ideológico do prof. Olavo de Carvalho, de 1995 até esta parte. De outro lado, é conhecido o lema do jornal Inconfidência, publicado por militares mineiros: “As Forças Armadas têm o dever sagrado de impedir, a qualquer custo, a implantação do comunismo no Brasil”.

A vantagem fica para os militares tecnocratas, por conta de sua experiência e competência administrativa. E também por contar com um alto comando capaz de elaborar e de implementar estratégias nacionais de curto, médio e longo prazo.

Ontem vi o título de uma notícia: “Mais um milico no Palácio do Planalto”. Embora exale o bafio da esquerda ressentida com os supostos “anos de chumbo da ditadura”, o texto é neutro e informa que o atual ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, será substituído pelo general Braga Netto. E note-se! Não é a Folha de São Paulo que faz essa publicação, é o Brasil Sem Medo, formatado por olavistas.

O gancho dessa notícia se prende à reforma nos quadros de alto escalão do governo. Em última análise, liga-se à luta de braço entre militares e olavistas na disputa de espaço dentro do poder.

Por cima dessa contenda pairam questões muito importantes: que papel devem desempenhar os militares e os olavistas num governo empenhado na luta contra a corrupção e no desmantelamento da obra deletéria dos governos socialistas de FHC, Lula e Dilma? Como harmonizar ideologia e política nas circunstâncias concretas do governo Bolsonaro?

A ala ideológica, seguidora de Olavo de Carvalho e dirigida informalmente pelos filhos de Bolsonaro, conta com apenas 2 ministros, o da Educação, Abraham Weintraub, e o das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Entre as suas figuras de relevo, destaca-se ainda o Assessor Especial para Assuntos Internacionais do Presidente da República, Filipe G. Martins, que viu suas quatro salas reduzidas a duas e esvaziadas as suas funções junto ao presidente, claro sinal de enfraquecimento do olavismo no Planalto. De fato, suas principais tarefas foram transferidas para a Secretaria de Assuntos Estratégicos, comandada pelo almirante Flávio Rocha, a quem Felipe doravante terá de prestar contas.

Segundo o jornal O Globo, teria havido na opinião de Bolsonaro, um excesso de ideologização na área externa; além disso, segundo a Folha de São Paulo, essa ala teria cometido uma série de erros no primeiro ano de governo.

A ala militar do governo passa a ter 8 ministros num total de 22. A militarização do terceiro andar, local onde está o gabinete presidencial, também teria o objetivo de distanciar do poder o olavismo. Ela havia perdido poder ao longo do ano 2019 para a ala olavista, inclusive com o caso do general Santos Cruz, e agora se viu reforçada e prestigiada.

À vista disso, não surpreende que Olavo de Carvalho, em entrevista ao Globo, tenha moderado sua opinião: “Eu fico feliz com a participação do Exército na vida política e social porque o Exército brasileiro não tem presença na sociedade. Eles vivem encostadinhos no canto deles e viram pessoas tímidas. Agora os militares estão presentes, estão participando da vida social. Acho ótimo, tem que colocar mais militar, encher de militar”.

Faz parte da ala militar governista o ministro da Defesa, General Fernando Azevedo, hábil articulador junto ao Judiciário, pois já foi assessor especial de Dias Toffoli, presidente do STF. Azevedo conseguiu ver aprovada a reforma previdenciária e a reestruturação da carreira dos militares. No Gabinete de Segurança Institucional, a antiga Casa Militar, continua com prestígio o general Augusto Heleno, conselheiro de confiança do presidente e elemento fundamental para a sua blindagem em qualquer hora e lugar.

O vice-presidente, General Hamilton Mourão, reduzidas ao mínimo as suas polêmicas e intempestivas declarações, foi recompensado com a chefia do Conselho da Amazônia. O general Luiz Eduardo Ramos, titular da Secretaria de Governo, aparou algumas arestas em crises com o Congresso e ajudou a moderar a virulência dos filhos do presidente, em especial o explosivo vereador Carlos, que chegou ao cúmulo de disparar o “fogo amigo” contra o próprio general Heleno.

Onyx Lorenzoni passou a Casa Civil para o general Braga Netto, ex-chefe do Estado-Maior do Exército, que já foi interventor militar na área de segurança pública do Rio de Janeiro em 2018. Azevedo, Ramos e Braga Netto, fizeram parte da chamada “turma das Olimpíadas”, responsável pelo esquema de segurança dos Jogos de 2016.

Nessa reacomodação de terreno depois da sacudida presidencial, soa mal dizer que Bolsonaro se tornou “refém dos militares positivistas e tecnocratas que vão alijar os conservadores e liberais do núcleo do governo”. Ou afirmar “Mais um milico no Palácio do Planalto”.

Bolsonaro teve em vista encerrar conflitos internos desnecessários e improdutivos. Sobretudo quis melhorar o fraco desempenho da articulação política principalmente com o Congresso Nacional nos primeiros 400 dias de governo.

O General Walter Braga Netto, na Casa Civil, vai organizar o “Centro de Governo”: definir a agenda de metas estratégicas, coordenar as atividades comuns aos ministérios e integrar os esforços da administração federal. Com o jogo de cintura que tem, vai estabelecer as novas bases da relação com o Congresso Nacional. Por sua vez, o Almirante Flávio Viana Rocha, considerado uma das mentes de inteligência privilegiada da Marinha, à frente da Secretaria de Assuntos Estratégicos, vai cuidar da dimensão estratégica do governo.

Sem dúvida é necessário o aporte ideológico ao governo, haja vista a ação nefasta das esquerdas durante os últimos trinta anos. Ou ainda, o aumento da presença chinesa no Brasil. Contudo, foi oportuno o reforço na blindagem fragilizada.Muitos motivos são apresentados: a inexperiência de Felipe G. Martins que fazia o assessoramento de alto nível do Presidente para assuntos internacionais; o alinhamento estratégico “incondicional” do Brasil com outras nações com prejuízo dos interesses brasileiros; a indevida influência de diplomatas estrangeiros no Itamaraty e na política interna do país; a ideologização que levaria a um impasse estratégico do governo.

A ideologização levou o açodado ministro Ernesto Araújo em abril de 2019 aos Estados Unidos. Lá teria discutido com o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, e com John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, a participação do Brasil numa eventual intervenção militar na Venezuela. A ponderação e o bom senso da área militar puxaram o freio de mão e a aventura nunca mais se repetiu.

Com todas essas mudanças e a experiência adquirida, o governo Bolsonaro reforça sua blindagem com o aço militar e reduz o risco das fragilidades de sua área olavista. A pancadaria midiática e petista, no momento, está concentrada no ministro Paulo Guedes, por conta de um comentário infeliz sobre as empregadas domésticas. Muita luta virá ao longo de 2020. Para todos os que estão nos ministérios, civis e militares, 2020 será literalmente um ano sem quartel e sem descanso.

O que foi dito esclarece ao leitor o papel a ser desempenhado pelos militares e olavistas no contexto atual do governo Bolsonaro. Pois não basta a luta contra a corrupção e o desenvolvimentismo tecnocrático: dentro da guerra cultural em curso, a pauta ideológica conservadora e de direita é uma importante colaboração dos olavistas para o bom sucesso do governo.

Resta ainda a analisar a outra questão proposta acima: como harmonizar ideologia e política, sem hipertrofiar nem minimizar a contribuição que a orientação ideológica conservadora e anticomunista pode dar ao país?

A política tem as suas balizas. Atribui-se a Otto Von Bismark este pensamento: “A política não é uma ciência, como supõe a maioria dos senhores professores, mas uma arte; a política é a doutrina do possível”. O que o grande estadista alemão quis dizer é que a política tem duas dimensões: a dimensão científica ou intelectual, que cabe aos professores e ao meio acadêmico. A dimensão prática cabe aos estadistas e operadores políticos que avaliam as lições do passado, as circunstâncias concretas do presente e os corolários futuros, que poderão recomendar ou desaconselhar determinada atitude a ser tomada, tendo como parâmetro a medida do que é possível realizar ou obter a curto, médio ou longo prazo.

Se a política é a arte do possível, com relação à ideologia pode ser dito algo análogo: a aplicação da ideologia às circunstâncias concretas da vida política de uma nação deve ser feita na medida do que é possível num determinado prazo realizar ou obter. O histórico brado “Independência ou morte!” mostrou que certas circunstâncias podem exigir o avanço inexorável contra todos os riscos, quando a ousadia ou a prudência não dependem exclusivamente de avaliações numéricas e envolvem inclusive a intuição de fatores imponderáveis.

Dessa intuição possante conjugada com a decisão enérgica de dois grandes vultos suscitados pela Providência – a princesa Dona Leopoldina e o príncipe Dom Pedro – nasceu o Brasil como nação livre e soberana. Mas a guerra cultural e ideológica não é vencida num único lance; é uma obra que exige o concurso de várias gerações empenhadas em inúmeras frentes de combate.

Nessa tarefa devem se empenhar em amistosa colaboração diversas correntes e setores da sociedade, como os militares, os empresários, os jornalistas isentos de petismo, os professores da academia, os clérigos de boa orientação, os olavistas e demais intelectuais, inclusive as pessoas que pela sua participação ativa nas redes sociais dão mostras do exercício sadio da cidadania. O valioso concurso dessas diferentes forças, orientadas pela prudência e voltadas ao bem comum, é altamente salutar. Harmonizar ideologia e política é preciso!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor registre seu comentário
Por favor, digite seu nome aqui