O valor da pessoa humana

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“A pessoa humana é um mistério a ser constantemente redescoberto” (São João Paulo II)

Há uma urgência em nossa realidade pós-moderna para um verdadeiro conhecimento de si, de Ser Humano, visto que muitas pessoas não conseguem compreender sua origem, constituição e seu fim último. Diante de tantas incertezas e falsas ideologias, muitas pessoas não conseguem reconhecer seu valor perante a vida, e consequentemente o valor da outra Pessoa. Progredindo nessa realidade, começa a surgir um reducionismo da dimensão do Ser Pessoa, uma redução para o mundo das coisas, dos objetos, da materialidade regada por princípios utilitaristas.

Movida pelos ensinamentos de Hugo de São Vitor em sua obra intitulada “Tratado dos três dias”, é necessário ao homem o conhecimento de si, pois “se não alcançar o entendimento de como foi feito além de todas as demais coisas, acabará se tornando semelhante a todas estas demais coisas”. [1]

Há um grande mal dominando os tempos atuais, o mal do “esquecimento” do Ser Pessoa, o esquecimento da existência de uma alma imortal, e assim, muitas vezes acabamos por acreditar que somos nada mais do que aquilo que vemos. O que gera uma ferida ainda maior, a redução da Pessoa ao mundo visível, no qual não há lugar para Deus, o Ser em plenitude, que excede as coisas visíveis, ultrapassa o tempo e a própria razão. O resultado final desse esquecimento pode causar consequências devastadoras para a humanidade, para a Vida, pois a ausência da dimensão eterna impossibilita conhecer a si mesmo, como também, impossibilita compreender o valor da Pessoa.

Ao iniciar este caminho de conhecimento é necessário perceber as diversas dimensões que constituem a Pessoa, como as dimensões físicas, psicológicas, afetivas, culturais e espirituais. Não cabe nesta reflexão o aprofundamento sobre essas dimensões, porém é necessário reconhecer as duas naturezas humanas, a natureza objetiva e a natureza subjetiva. A natureza objetiva possibilita ao Ser Humano a distinção dos outros seres do mundo visível, como o mundo das coisas. A objetividade nos possibilita ser “alguém” inteirado pela sua natureza racional, isto é, um indivíduo em que a razão faz parte da natureza, ao mesmo tempo que é um ser único, irrepetível e autêntico, graças a outra natureza subjetiva que rega a interioridade do Ser Humano, a forma da vida que lhe é própria, a sua vida interior, fenômeno inexistente nos animais. [2]

Essa particularidade da vida humana regida pela vida interior permite nos distinguir dos animais e dos outros seres do mundo visível. A singularidade e autenticidade do Ser Humano é tal, que a própria nomenclatura “indivíduo” já nos permite uma contemplação da unicidade e irrepetibilidade de nosso Ser.

Enfatizo aqui reflexões acerca de sua real originalidade etimológica. No latim, Individuus = in, não dividuum, não divisível, o inseparável, nos remete a noção de unidade e completude, aquilo que é uno, ao mesmo tempo que é único em sua totalidade. Segundo Santos, na Filosofia essa individuação assume o aspecto como um todo, mas distinto dos outros, uma totalidade, uma unidade impartível.

“Todo conteúdo de pensamento, que forma uma totalidade, apresenta-se como individuado, e é um indivíduo, nesse sentido, pois não é susceptível de redução às suas partes, pois não é um composto, como o número 5 forma uma individualização, pois não é a soma de 3 mais 2 que o forma, mas, em si mesmo, em sua formalidade, é uma totalidade unitária”. [3]

A unicidade do Ser Humano é confirmada por nossa própria natureza biológica, basta que consideremos nossa carga genética, o DNA, a impressão digital, que são únicos e irrepetíveis. Portanto, todo o nosso Ser expressa e comunica nossa autenticidade, desde nossa fisicalidade, nossa fala, nossas expressões, nossas atitudes, revelam a originalidade do existir, ao mesmo tempo que revela nossa complexidade perante o mundo das coisas visíveis e materiais.

Essa unicidade é tal, que sua substância é imutável e imaterial, ou seja, está intrínseca a nós, não perceptível aos nossos olhos, mas percebemos sua presença em nosso interior a medida que vamos nos relacionando com nós mesmos, nos relacionando com o mundo a nossa volta e com cada Pessoa presente em nossa vida. Essa relação é regada pela interioridade de cada Pessoa, a vida interior, expressa por seus pensamentos, sentimentos, vontades que são revelados nas ações e atitudes que tomamos a cada momento.

A particularidade da vida interior, que se traduz na vida espiritual é “exclusiva” ao Ser Humano. Podendo observar pela comunicação da Pessoa com o mundo, no qual não acontece somente no plano físico e sensorial, como nos animais e outros seres da natureza. A comunicação Pessoa humana envolve a sua própria interioridade, ao sorrir, ao olhar, ao abraçar, a Pessoa expressa o seu próprio ser, que ultrapassa a dimensão material. A comunicação humana é regida por aquilo que preenche o coração, o interior, que na ausência de alguma fala, som ou ação, a própria presença do Ser possibilita o contato com a interioridade, capaz de completar nossa própria inquietude.

Desprezar a dimensão espiritual do nosso ser, a substância imaterial e as coisas invisíveis que nos cercam é desprezar nossa própria existência, é a morte para a vida, é negar a verdade sobre si mesmo.

Assim, estamos diante de uma das bases da definição do homem enquanto Ser Humano, a sua interioridade, o Sopro da Vida, como nos recorda Gênese 2, 7: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem tornou-se um ser vivente”. Essa dimensão do ser Pessoa que nos possibilita tornar-se Vivo, a existência que transcende a materialidade e temporalidade do mundo. 

Portanto, considerar a Pessoa apenas em sua dimensão física e biológica é reduzi-la ao plano material e tratá-la como um objeto, é servir-se da Pessoa como um meio. O esquecimento da riqueza e da contemplação da interioridade na Pessoa humana nos leva a negação da própria vida, e, mais profundamente ainda, é desprezar a vida eterna que é inerente ao existir.

A dimensão da eternidade não é passível de redução, e eleva a nossa existência ao plano do amor, ao ato de amar e ser amado, nos coloca em um plano de relacionamento, de recíproca comunicação e complementaridade com as outras pessoas. “A essência do amor inclui a afirmação do valor da pessoa como tal” [4]. Valor esse que é superior ao mundo das coisas, ao visível, ao quantificável, ao divisível, compreende a uma elevação da realidade na qual estamos submersos.

Desse modo, o amor requer a dimensão totalizante do Ser Humano, o ato de amar clama para o verdadeiro valor da Pessoa, sem redução de suas partes, mas afirma o Todo que é uno e indivisível.

E por essa profundidade, finalizo minhas considerações a respeito do Ser Pessoa, inspirada pelas belas reflexões de São João Paulo II e pela inspiração divina de Cristo, que alimenta nossa alma, nosso Ser, na direção do conhecer e da revelação. Agora posso compreender que o invisível determina o homem mais que o visível.

[1] http://www.cristianismo.org.br/pfp-05.htm

[2] SÃO JOÃO PAULO II. Teologia do Corpo: o amor humano no plano divino. 2 ed. São Paulo: Ecclesiae, 2019.

[3] SANTOS, M. F. d. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 4 ed. São Paulo: Matese, 1963.

[4] WOJTYLA, Karol. Amor e Responsabilidade. São Paulo: Cultor de Livros, 2016.

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