O tele ensino bloqueia o aprendizado

0
Freepik.com

A questão foi objeto de polêmica no Canadá

Com a Covid-19, a mídia voltou a insistir que o futuro da educação está no tele-ensino e aplicativos, com suas derivações como o tele-trabalho. Esses elogios entusiastas da interação a distância, entretanto, não resistem à evidência mais primária: o ensino envolve antes de tudo um relacionamento humano entre o mestre e o aluno.

O assunto pegou fogo no Canadá e foi objeto de polêmica no site Pour une école libre au Québec

Um ensino praticado através de uma tela digital mata o relacionamento vital entre o professor e o discípulo.

Essa convivência é tão básica e prévia a qualquer escolha humana que foi elogiada pelos grandes educadores da humanidade na Antiguidade, para começarmos por ai. Falamos de mestres insuperáveis como o filósofo grego Platão.

É preciso louvar, como fez Stéphane Ratti, professor Universitário de Línguas Clássicas e autor de inúmeros livros sobre o assunto, o “trabalho admirável dos professores que nos nossos difíceis tempos desenvolvem tesouros de imaginação para manter o contato com seus alunos, definindo a natureza profunda e autêntica de uma missão que não pode se reduzir a um ensino a distância”.

O ensino online pode funcionar em circunstâncias especiais. Mas ainda assim carece do essencial que a eletrônica não dá nem pode dar.

Na aula pessoal, o mestre pode perceber a fatiga, a distração, a adesão, as distrações e uma multitude de reações ínfimas, daquilo que se chama “mensagens subliminais da aula” silenciosos ou rumorosos, vindos da classe ou de um aluno em particular, e adequar seu proceder à ocorrência. E isso tem um valor sem igual.

Nada de mais precioso que transmitir ao ensinando por via oral, adaptando o conteúdo e a forma da matéria ensinada, para torná-la compreensível e assimilável segundo cada caso. Não há nada de mais belo, nobre e sedutor, diz o site canadense que comentamos. Se comparamos, que miséria é um jogo de cliques na tela! Outrora houve quem achasse que bastava ir na biblioteca municipal e consultar alguma das inúmeras enciclopédias que acumulam poeira nas prateleiras.

Hoje, a triste cena se repete com um ensino através de uma enciclopédia digital planetária que se chama Internet.

Por que escolher isto ou aquilo dentro de uma massa insondável de dados? perguntavam ao Prêmio Nobel de Literatura André Gide.
Nós precisamos de um guia, um professor de carne e osso, porque sem ele “o superficial ofusca o que é mais importante”, respondia o literato.

A pedagogia virtual está viciada de inconvenientes e repousa sobre uma ilusão. Professor algum, digno desse nome, repete como uma máquina, digital ou não, a matéria que ensina.

Nada de mais precioso que despertar a inteligência no ensinando por via oral.

Pelo contrário, ele sabe fazer pausas nos momentos mais psicológicos para as jovens mentes que estão diante dele.
Ele se adapta às reações, enriquece com exemplos, reflexões, desfaz dúvidas que o olhar dos alunos lhe sugere.
Basta rememorar a imortal cena de Platão ensinando a seus discípulos a ordem da Criação numa conversa em torno da fogueira no interior de uma caverna num dia de frio.

O mestre sabe ensinar assim, e muitas vezes nessas interrupções, na exposição com exemplos, etc., ele aprende também.

Ele não obedece a leis maquinais, mas a regras ditadas humanamente pelo bom senso e a experiência da realidade porque ele não está diante dos automatismos de um smartphone, ou equivalente.

Nessa adaptação ao público real aparece a própria essência da pedagogia e do bom mestre.

O livro vale no nível da literatura, mas no ensino é um instrumento complementar que nunca poderá estar no centro: isso seria enganoso, insuficiente, fraco e no fim de contas, inassimilável, pesado, excessivo e esgotador. Tanto mais uma imensa literatura online.

O filósofo Nietsche observou em seu curso sobre Platão de 1871 que “um curso apenas escrito é ademais muito burro: ‘Ele não responde às perguntas de quem está devorado pelo desejo de aprender’.

Esse foi um ponto essencial do genial pensador grego. Na sua obra Fedra, o filósofo cria um diálogo didático entre o rei egípcio Thamos e o deus Tot que, segundo a mitologia, inventou a escritura para solucionar as falhas da memória e transmitir o saber.

No diálogo platônico, Thamos, e com ele Platão, condenam a escritura. Por que?

Porque segundo o filósofo, através do diálogo, da troca de opiniões por vezes contraditórias, pela investigação, pelo jogo de perguntas e respostas, no ensino oral reside a natureza profunda da transmissão do pensamento.

Ensinar é como um diálogo liderado por um mestre que, por sua vez, deve saber ser até ingênuo ou irônico, com habilidade, e nunca excludente.

Um curso escrito a distância, impresso ou virtual, é exatamente o oposto, conclui Pour une école libre au Québec.

fonte: lumenrationis.blogspot.com

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor registre seu comentário
Por favor, digite seu nome aqui