Rosário digital e a Aldeia Global

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Àqueles que recorriam a oração no final do dia para ter um momento de paz, a fim de livrarem-se um pouco da (abundância excessiva) de estímulos digitais com que somos bombardeados diariamente, sobretudo pelo aparelho celular, tenho uma triste notícia: chegou o “eRosario”. 

O Vaticano acaba de lançar um Rosário eletrônico que é utilizado em conjunto com quem? Sim, justamente ele: o aparelho celular, por meio de um aplicativo que deve ser instalado nele.

Portanto, esqueça aquela luz dourada da vela e aquele ambiente tranquilo que favorecia a meditação, o pensamento abstrato e a reflexão nas coisas de Deus. Ela está aposentada, já que é com o brilho estimulante da tela do celular que a partir de agora você pode rezar.

 Foto: Reprodução / Notícias do Vaticano

A proposta do Vaticano é criar uma rede mundial de orações pela pela paz no planeta, além de ser uma importante ferramenta de ensino para a oração do rosário. A iniciativa tem entusiastas no mundo todo, principalmente no clero que acredita na aceitação e na propagação universal dos eRosarios. É preciso reconhecer que a iniciativa foi bem planejada e, de fato, poderá rapidamente se tornar popular. No entanto, sem querer ser desmancha prazeres, gostaria de lançar um olhar um pouco mais analítico e crítico sobre a questão. Até para compensar a provável unanimidade que irá se criar em torno dos benefícios dos Rosários eletrônicos.

Rosário ou pulseira?

Em primeiro lugar, o eRosario não é um Rosário e nem um terço dele – como é tradicionalmente utilizado e rezado pelos fiéis católicos há tantos séculos. Ele é uma dezena. E, neste sentido, acontece uma certa descaracterização do objeto já que a restrição à uma dezena é em determinado sentido um apequenamento do Rosário ou do terço. Apenas olhando para a dezena, perde-se a noção de que ela pertence a um conjunto maior e coerente de mistérios a serem meditados, distanciando-se da aparência de um objeto sacro de devoção e aproximando-se do aspecto corriqueiro e profano de uma mera pulseira.

O High-tech e o Sagrado

Tal descaracterização é acentuada por seu design e aparência hi-tech, em que o eRosario adquire a frieza estética que caracteriza os aparelhos eletrônicos. Essa aparência fria não ajuda, e inclusive dificulta, a percepção do sagrado e consequentemente a elevação do espírito a Deus, porque o que caracteriza a riqueza estética que leva ao sacral é a ordenada riqueza de linhas, a proporção das formas e a harmonia das cores.

A ordem e riqueza no objeto tendem a gerar uma emoção estética que, unida a um sentido direta ou indiretamente religioso e o concurso da graça, produz uma percepção do sagrado. Esta percepção, por sua vez, auxilia e favorece a oração. Ou seja, a qualidade da oração pode ser prejudicada pelo eRosario.

Quantidade vs Qualidade

Como podemos justamente pressupor que o Vaticano deseja buscar um aumento – não somente na quantidade de pessoas que rezam, mas também na qualidade da oração – o eRosario estará em contradição com a finalidade para que foi originalmente criado e seu uso teria efeitos negativos sobre os fiéis.

Para ilustrar a necessidade de qualidade na oração e de como o eRosario poderia deixar a desejar nesta matéria, menciono as declarações do Cardeal Sarah, prefeito da congregação para o culto Divino. Dirigindo se a comissão Sumorum Pontificum em Roma, em setembro de 2019, sobre a utilização de celulares para oração, o Cardeal disse: 

“Os Sacerdotes não deveriam utilizar o celular e tablets para rezar o breviário” continua o Cardeal “Esses aparelhos devem ser desligados ou deixados em casa quando vamos adorar a Deus”.

De acordo com Sarah, o uso desses aparelhos dessacraliza a oração.

“Esses instrumentos não são consagrados e reservados a Deus, mas os usamos para Deus e também para coisas profanas…”, conclui.

e-Rosario e Agenda da ONU

Já para quem sempre imaginou que a oração é uma comunicação individual com Deus, onde Este tem um relacionamento particular e exclusivo com o que reza, o eRosario o fará ter uma visão um pouco mais “evoluída”, mais coletivista.

Em suas intenções, o fiel terá que se adaptar a uma intenção coletiva e uma agenda global. A paz no mundo é apenas a primeira intenção que está sendo proposta, que em si é imaculada, porque quem pode se opor a uma intenção dessas?

Acontece que temos notado uma confluência em muitos pontos entre a agenda da ONU, que é notadamente anti-cristã, e a agenda do Papa Francisco. Em entrevista em setembro deste ano,  Papa Francisco declarou que “temos que obedecer à ONU”.

Ou seja, há uma grande possibilidade de que, em um segundo momento, a intenção imaculada da paz no mundo possa ser sucedida por temas controversos, como, por exemplo, aquecimento global, ecologia e desenvolvimento sustentável, direitos humanos, direitos LGBT, internacionalização da Amazônia e, por fim, governo mundial e ecumenismo.

Aldeia Global

Na prática, o eRosario desvirtuaria a reza do rosário de suas concepções originais e se tornaria uma plataforma de reivindicação e de propagação de ideias e políticas que em grande parte são promovidas por toda a esquerda mundial, pela ONU – que é um órgão que, como já dissemos, tem uma agenda notadamente anticristã, intervencionista e internacionalista.

É preciso notar que, por meio do aplicativo, o fiel poderá interagir com outros da rede no mundo todo e com o próprio Papa para conversar, dentre outras coisas, sobre as intenções para as quais estão rezando. A princípio, isto pode ser uma ideia atraente, mas a interação instantânea a nível global e com temas e intenções predominantemente de interesse também globais e internacionais, está em total consonância com toda expectativa da esquerda mundial e da ONU, a instauração de uma Nova Ordem Mundial. Nesta, os estados nação, as características culturais e costumes locais, bem como todo o direito consuetudinário seria ou abolido ou delegado a um plano totalmente secundário.

Assim, a Santa Igreja, prestaria um grande serviço aos seus inimigos declarados, condicionando todas as gerações mais novas de católicos no mundo a promover a sua agenda, e literalmente criar um ambiente psicológico favorável a implantação de um governo mundial e, porque não, depois de algum avanço do ecumenismo, uma religião universal?

Está aí o Sínodo da Amazônia, onde a Igreja promoveu globalmente o culto de totens pagãos em cerimônias rituais, fatos esses que demonstram bem o tamanho da transformação que poderá haver a nível pastoral na Igreja – em que eRosarios teriam seu papel. Rezemos a Nossa Senhora para que ilumine e proteja a Santa Igreja neste período difícil de transformações que estamos passando.

1 Comentário

  1. Há anos o Vaticano tenta fazer um “aggiornamento” para se “aproximar dos fiéis”, principalmente dos jovens. O que se viu, na realidade, com esta “abertura para o mundo” foi a saída de milhões de católicos que deixaram a Igreja por não verem mais nela a imagem de Nosso Senhor e sim a do mundo simplesmente. O que há são padres sessentões vestidos de adolescentes com igrejas vazias e padres, acredite, vestidos de padres e rodeados de jovens que encontram aí o que o mundo jamais poderá oferecer: o sagrado.

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