O Reino do Céu é para gente valente e decidida

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Excerto de magnífica Pastoral de autoria do Grande Bispo do Pará, D. Antônio de Macedo Costa, defensor infatigável dos interesses da santa religião em face das tramas abjetas da maçonaria e do regalismo, glória imortal do nosso Brasil, incontestavelmente um dos mais belos ornamentos do Episcopado das Américas.

Julgas, ó cristão, que Jesus Cristo morreu por ti para dar-te o direito de viveres tranquilo no pecado? Julgas que ele derramou o seu sangue para que a teu salvo continuasses a crucifica-lo de novo com tuas culpas e a ofender a majestade infinita de seu Pai? É assim que entendes a Redenção? É esta liberdade funesta que Cristo trouxe ao mundo? De que nos remiu ele então? De que jugo nos libertou?

Se era para ficarmos escravos do demônio, sujeitos ao cativeiro infame das paixões, então foi inútil a sua morte, então foi derramado debalde o seu sangue.

Como! Veio o Verbo de Deus, o filho eterno do Pai a este mundo, nasceu n’um presépio; sofreu pobrezas, fomes, desterros, trabalhos, perseguições, ciladas, desprezos; jejuou, orou, cansou-se, derramou suores e lágrimas, e por fim foi traído, vendido, preso, desamparado, cuspido, açoitado, condenado à morte como um vil criminoso e pregado no patíbulo da Cruz entre ladrões! Um Deus! O Criador do céu e da terra em tal lugar! Se um grande rei morresse enforcado entre dois vis escravos assassinos, o mundo inteiro ficaria assombrado de tanta humilhação. Aqui, porém, não é um rei; é o Deus eterno, onipotente, Senhor de todo o criado, que se abaixou à desonra de tão afrontosa morte!

Um Deus, que morre, e morre na Cruz! Um Deus que nesse altar da Cruz, nu, palpitando, todo banhado em seu sangue, se oferece Vítima de propiciação pelos pecados dos homens, e que prolonga e continua todos os dias esse seu tremendo sacrifício sobre os altares da Igreja até o fim dos séculos. Um Deus que funda o augusto sacerdócio da nova Aliança, participação de seu eterno sacerdócio; que estabelece sacramentos adoráveis, e põe à nossa disposição graças superabundantes para vencermos o demônio, derrotarmos a própria carne, e vivermos na pureza, na justiça, na caridade, na paciência, na humildade, em uma palavra: na prática das mais sublimes virtudes de que nos deu o exemplo.

E o que fazemos nós? Pecados e mais pecados, excessos e mais excessos, desordens e mais desordens. Venham os deleites, venham os carnavais, venham os teatros e as danças libidinosas, venham as farras e os bailes, venham os jogos devoradores da honra e da fortuna; venham as ambições desenfreadas, venham os tráficos usurários; venham as políticas dissimuladas de fraudes e malversações, venham as discórdias e os ódios sedentos de vingança, venham as maledicências e as calunias; venham as uniões imorais, as prostituições e adultérios; em uma palavra, venham a soberba, a impiedade, o sensualismo, o egoísmo, com todas as desordens da antiga gentilidade. E chama-se a tudo isto liberdade moderna, progresso, civilização!

Irmãos e Filhos muito amados, é possível que seja isto assim? 

Não, não, nosso batismo nos obriga a vida muito diferente; o fato da Encarnação e da Redenção nos empenha a proceder de um modo todo contrário a este século corrompido.

Oh! Caros Filhos, que o Deus da paz quebre quanto antes Satanás debaixo de vossos pés (Rom. XVI, 20) e vos encha da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo para combaterdes contra tudo o que se opõe à vossa salvação. O reino do céu não é para os esmorecidos, que deitam a mão ao arado e olham para trás (Luc. IX, 62); mas para a gente valente e decidida, para os que se fazem violência a si próprios, lutadores sublimes, que se estendem e de desconjuntam na arena para arrebatar mais depressa o prêmio almejado (Fil. III, 13): Violenti rapiunt illud (Mat. XI, 12). Esforçai-vos: corrigi vossos defeitos, sobrepujai os ímpetos das paixões, removei as ocasiões de pecado, fazei frutos dignos de penitencia; ponde pela oração e pelos Sacramentos em vossas almas a verdadeira vida e a paz.

“Suplico-vos pela misericórdia de Deus, vos diremos com S. Paulo, que lhe ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a seus olhos, prestando-lhe um culto espiritual (acompanhado de boas obras, e não um culto só de aparências). E não vos conformeis ao século presente, mais reformai-vos, pelo renovamento do espírito, para seguirdes a vontade de Deus, grata a seus olhos e perfeita. Caridade sincera, sem dissimulação; tende horror ao mal, unindo-vos fortemente ao bem. Nutra cada um para seu próximo um afeto e ternura verdadeiramente fraternal, dando-se mutuamente testemunhos de honra e de deferência. Não sejais frouxos no cumprimento do dever; conservai-vos no fervor do espírito, lembrando-vos que servis ao Senhor. Alegrai-vos na esperança dos bens eternos, pacientes nos males, perseverantes na oração, caridosos para aliviar as necessidades dos justos, prontos a exercer a hospitalidade. Bendizei os que vos perseguem; bendizei-os e não lhes lancei imprecações; alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram; unidos todos nos mesmos sentimentos, condescendendo com os mais humildes. Não pagando mal com mal; mantendo, quanto for possível, a paz com todos; não vos vingando, meus irmãos, mas deixando a Deus esse cuidado, pois está escrito: A mim fica reservada a vingança, e a cada um darei o pago, diz o Senhor. Pelo contrário, se vosso inimigo tiver fome, dai-lhe que comer; se tiver sede, dai-lhe que beber…” (Rom. XII e seg.) Eis aqui a doutrina da nossa religião. Eis aqui o cristianismo, como a Santa Igreja Católica Romana no-lo ensina. Ah! Como a sociedade inteira se reformaria, se esta doutrina fosse por todos abraçada e posta em prática.

Se cada um se reformasse, e se tornasse um verdadeiro cristão, as famílias se reformariam também; uma verdadeira educação seria dada aos filhos; estes cresceriam em graça e sabedoria diante de Deus e diante dos homens; seriam depois cidadãos úteis e virtuosos, e assim ficaria por sua vez reformada a sociedade. Não é isto o que todos desejais? Mas como de vós mesmos nada podeis fazer, e necessitais dos auxílios da graça, recorrei com confiança neste mês de bênçãos ao trono da graça e da misericórdia, e certamente, pelos rogos e intercessão da Imaculada Virgem Maria Mãe de Deus, advogada dos pecadores e Padroeira desta diocese, alcançareis a misericórdia e achareis o oportuno socorro da graça em vossas necessidades. (Hebr. IV, 16)

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D. Antônio de Macedo Costa (1830-1891). Pastoral exortando a seus diocesanos por ocasião das manifestações afetuosas com que o receberam em sua volta à diocese, e oferecendo-lhes em sinal de agradecimento um opúsculo sobre os deveres da família (1876).

FONTE: Fidelidade VCR e Centro Dom Bosco

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