O novo e polêmico filme de Polanski

0

Roman Polanski é um diretor de cinema consagrado. Nasceu em Paris em 1933, numa família de judeus poloneses. De volta à Polônia, sua família experimentou os sofrimentos do gueto de Cracóvia e a passagem pelos campos de concentração nazistas. Ao final da guerra, voltou a Paris com seu pai e se dedicou primeiro ao teatro e em seguida ao cinema. Já no começo dos anos 1960 Polanski teve um filme indicado para a premiação do Oscar como melhor filme estrangeiro.

Em 1968 fez em Hollywood o filme O Bebê de Rosemary, no qual se celebrava o nascimento do Anticristo. A segunda mulher de Polanski, a atriz de cinema Sharon Tate, foi assassinada em 1969 num ritual macabro planejado por Charles Manson e executado por membros de sua seita. Prestes a sofrer condenação em 1978 pelo estupro de uma adolescente de 13 anos, Polanski fugiu dos Estados Unidos para evitar sua prisão, e passou a viver na Europa. Em 2002, com o filme O Pianista, obteve o cobiçado prêmio Oscar do cinema como melhor diretor.

A partir de 12 de março mais um filme sob a direção de Polanski será exibido no Brasil. Trata-se de O Oficial e o Espião (J’accuse, no original em francês). O famoso caso Dreyfus volta à cena. Na Paris do final do século XIX, um capitão do exército francês, de origem judaica, Alfred Dreyfus, é acusado de alta traição por espionagem para a Alemanha, julgado, condenado à prisão perpétua no exílio e expulso do exército. O coronel Picquart, chefe da seção de inteligência, por conta própria resolve investigar e desvendar o caso. Descobre então que foram usadas provas falsas para incriminar Dreyfus. Numa das primeiras cenas do filme Picquart diz a Dreyfus que não gosta dos judeus, mas por questão de honra pessoal procederá com justiça. Picquart, o personagem principal do filme, é apresentado como o herói capaz de contrarrestar a maldade do antissemitismo.

Polanski, de 86 anos, não traça um retrato profundo das motivações psicológicas dos vilões do enredo. Apresenta-os como pessoas más que se movem como autômatos quando recebem ordens. Desse modo indireto o cineasta procura limpar a sua reputação pessoal: faz-se de vítima pelas violências sexuais que praticou em mulheres ao longo de sua vida, atribuindo sua situação à maldade de seus acusadores que estariam programados como autômatos para assim procederem.

O caso Dreyfus, na época, expôs a corrupção que havia dentro do exército francês. Embora fosse um caso pontual de espionagem, serviu para a desconstrução da instituição militar. Mais ainda: serviu para desacreditar os monarquistas católicos e a direita francesa aninhados nessa instituição. O caso se arrastou de 1894 a 1906, numa época em que o anticlericalismo estava muito virulento e o republicanismo de esquerda muito aguçado. Apesar de Dreyfus ter sido reabilitado, o exército francês continuou a manter a acusação contra ele, de traição ou suspeita de traição.

Uma razão especial desperta a atenção sobre o filme de Polanski e é por isso que aqui está sendo objeto deste comentário. Não é por ser mais um filme na esteira de películas que promovem a causa judaica, produzido por um cineasta judeu de renome. É o fato de o filme ter recebido indicações para doze modalidades do prêmio César do cinema francês (inclusive melhor filme e melhor diretor) e ter provocado protestos de parte da opinião pública e de associações feministas, contrárias a que se preste homenagens a um diretor de cinema acusado de violência sexual.

“Se violar é uma arte, então é preciso dar a Polanski todos os Césares”, reagiu no Twitter o coletivo feminista “Osez le feminisme”. Outra feminista, Céline Piques, porta-voz do movimento Dare Feminism, disse a uma jornalista da AFP: “Queremos interpelar a indústria cinematográfica por apoiar a atriz francesa Adèle Haenel, que denuncia atos de agressão sexual e, ao mesmo tempo, com incrível hipocrisia, apoiar Roman Polanski”. 

Na França a estreia do filme ocorreu no final de 2019. A atriz e fotógrafa francesa Valentine Monnier então denunciou publicamente ter sido violada por Polanski em 1975 quando tinha 18 anos. Numa entrevista publicada pelo jornal Le Parisien, Valentine relatou ter sido golpeada fortemente num chalé da Suíça e depois estuprada pelo cineasta. Outras mulheres também asseguraram nos últimos anos terem sido sexualmente agredidas por ele.

Alain Terzian, presidente da academia francesa de cinema, ao anunciar as doze indicações para o prêmio César, justificou a presença de Polanski entre os concorrentes, dizendo que a premiação “não adota posições morais” e que um milhão e meio de pessoas foram aos cinemas para assistir esse filme. Na mesma linha da amoralidade se pronunciou o diretor Costa Gavras, ao afirmar que as indicações para os prêmios foram “decididas democraticamente”, e que “é preciso distinguir o homem e a obra”. Mas, como declarou o ministro da Cultura, Franck Riester, para Europe 1: “A dificuldade é que não se celebra simplesmente a obra, celebra-se também o homem”.

Antes do início da cerimônia de entrega dos prêmios César, em 28 de fevereiro, a polícia usou o gás lacrimogênio para dispersar os manifestantes que portavam cartazes denunciando os “Césares da vergonha” e bradando slogans como “Violador, estamos te olhando. Vítima, acreditamos em ti” e “Prendam o Polanski”.

O filme J’Accuse conquistou três prêmios: melhor diretor, melhor figurino e melhor adaptação. Polanski e sua equipe não compareceram. A ausência se deu por que na véspera o ministro da Cultura, Franck Riester, havia dito numa entrevista que a concessão do prêmio de melhor diretor a Polanski teria uma mensagem simbólica negativa “em relação à consciência necessária que todos nós precisamos ter na luta contra a violência sexual e de gênero”. Polanski reagiu num comunicado e anunciou que toda a equipe de filmagem, indicada doze vezes, boicotaria os Césares. Disse que sua ausência evitaria o seu injusto “linchamento público”.

No momento em que foi anunciado o prêmio para Polanski, uma das indicadas ao César, a atriz Adèle Haenel, que tinha relatado publicamente ter sido abusada sexualmente aos 12 anos de idade por outro diretor, retirou-se da sala, junto com uma dezena de convidados, em sinal de protesto. Filmada na saída por Paris Match, ela exclamou, com ironia, batendo as mãos: “Viva a pedofilia! Um ‘bravo!’ à pedofilia”. Numa entrevista que depois concedeu ao New York Times, Haenel comentou que o prêmio dado a Polanski representou uma cuspida no rosto das vítimas de agressões sexuais. 

Uma das manifestantes se mostrou consternada pela entrega do prêmio ao diretor. “Estou envergonhada”, disse a ativista feminista Sophie Tissier. “Estou arrasada, enojada, chocada. Tenho vontade de vomitar. Digo a mim mesma que essa instituição não entendeu nada. São incapazes de ouvir as mulheres”. E lamentou a falta de comprometimento dos artistas: “Eu teria preferido que eles boicotassem a cerimônia, mostrassem a cara e dessem sua opinião”.

No Instagram, Jean Dujardin, que fez o papel do coronel Picquart, postou fotos de época do jornal L’Aurore, que estampava o artigo J’accuse” do escritor Emile Zola. E comentou: “Gostaria apenas de lembrar que ‘J’accuse’ é o título de um artigo bastante famoso de Émile Zola, espero que isso não incomode ninguém. Boa noite!”

Dujardin apenas passou o recibo: a questão judaica, enaltecida pelo filme, foi posta de lado e superada pelas reivindicações feministas. Ficou com cheiro de coisa mofada. Mas então: como é possível que o poderoso lobby judaico no cinema e na mídia tenha permitido tamanha afronta e humilhação a um dos seus mais representativos ícones? Não tiveram força para abafar a investida feminista?

Polanski quis vender a ideia de que ele seria um novo Dreyfus, injustamente acusado de pedofilia e estupro, por ser judeu. A agenda feminista, ao não aceitar a narrativa dele, passou por cima da sua condição de judeu. Houve um conflito de narrativas, a judaica e a feminista. O que surpreende é que a judaica tenha sido superada, quando o referido lobby poderia ter evitado o conflito de interesses ou arranjado outra solução menos vexatória. O ardor dos novos movimentos revolucionários da pós-modernidade sobrepujou os esquemas cinematográficos que promovem a velha narrativa do caso Dreyfus.

O que terá acontecido por detrás dos bastidores? Não é um caso isolado o de Polanski. Jeffrey Epstein, o devasso bilionário que se suicidou ou foi assassinado na prisão, teria informações comprometedoras sobre Bill Clinton e outras celebridades. Harvey Weinstein, produtor de cinema em Holywood, foi recém condenado por estupro e agressão sexual. E o caso de Polanski também se somou à cadeia de escândalos. As muralhas do mundo cinematográfico perderam sua centenária solidez, não são abaladas pelo ruído de trombetas que soam, mas pelo grito das feministas. 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor registre seu comentário
Por favor, digite seu nome aqui