“O declínio do Ocidente não é acidental”, afirma historiador em entrevista

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catedral de Notre Dame. Paris.

Em entrevista o historiador David Engels dá conselhos pessoais com base em seu livro “O que fazer? Vivendo com o Declínio da Europa, um guia de sobrevivência para os amantes do Ocidente”

FIGAROVOX.– Seu livro “O que fazer? Viver com o declínio da Europa” é mais uma questão de testemunho pessoal do que de um ensaio político. Por que você deseja compartilhar esses pensamentos íntimos?

David ENGELS.- A situação é grave: não é só um modelo político, econômico ou social que vai desaparecendo aos poucos, mas tudo o que foi, por mil anos, “o Ocidente”. Este desenvolvimento é tudo menos uma notícia que bastaria anotar cuidadosamente antes de continuar como se nada tivesse acontecido: o declínio massivo da Europa como civilização é uma verdadeira tragédia histórica que diz respeito a todos nós, não apenas como coletivo, mas também como indivíduos. Pessoalmente, sofro muito com o anunciado fim da civilização ocidental, que amo de todo o coração, e sei que estou longe de ser o único neste caso, embora muitos contemporâneos ainda não percebam totalmente a natureza extremamente grave desta evolução ou não ousem tirar dela as consequências necessárias. É para eles que escrevi este livro, a fim de compartilhar com eles meus pensamentos sobre como nós, amantes do Ocidente, sua história, seu patrimônio e suas tradições, podemos fazer para permanecer fiéis, em um mundo pós-europeu, às nossas convicções íntimas e para legá-las aos nossos descendentes.

FIGAROVOX.– Você se lembra da analogia entre o declínio atual do mundo ocidental e o declínio do mundo greco-romano que você estudou em um de seus livros anteriores. Como funciona a comparação?

David ENGELS.- A honestidade consigo mesma deve ser a virtude suprema para qualquer civilização que se preze.

Na verdade: o declínio do Ocidente, como muitos historiadores como Oswald Spengler ou Arnold Toynbee mostraram, não é um acidente: está inscrito na própria lógica da História que já experimentou a ascensão e queda de muitas outras civilizações. No meu livro Le Déclin, aliás recém-lançado em edição de bolso com novo prefácio há algumas semanas, tentei mostrar como a atual crise na Europa lembrava a da República Romana do primeiro século, quando, alcançou por uma crise política, econômica, demográfica, étnica e social sem precedentes, foi dilacerada por motins endêmicos que se transformaram em verdadeiras guerras civis antes de tombar para um estado autoritário, certamente estabilizando a crise, mas ao custo de uma redução drástica de liberdade política e uma certa estagnação cultural. Estou convencido de que esse desenvolvimento também nos espera nas próximas duas décadas e só posso pedir aos meus leitores que se preparem para esses eventos.

FIGAROVOX.– Você aponta para o fato de que poucas pessoas realmente ousam falar em “declínio”. Mas você não tem medo de que falar sobre isso possa ter um efeito performativo?

David ENGELS.- É como na medicina: você gostaria de ser tratado por um médico que tratasse seu câncer como um resfriado, por medo do impacto psicossomático de lhe contar a real situação? Assim, acredito acima de tudo que a honestidade consigo mesmo deve ser a virtude suprema para qualquer civilização que se preze. Silenciar voluntariamente a realidade dos processos culturais que estão ocorrendo atualmente – seja imigração em massa, envelhecimento da população, islamização, inteligência artificial, a dissolução dos Estados-nação, a autodestruição do sistema escolar e a academia, o imenso atraso da Europa em relação à China, a transformação da democracia em tecnocracia – equivale, em minha opinião, a um ato de alta traição com consequências duradouras. Porque quando a verdade – isto é, a natureza cada vez mais irreversível do processo – vier à tona, até os últimos resquícios de confiança em nosso sistema político serão destruídos, assim como a solidariedade social entre os diversos grupos sociais e culturais que compõem nossa sociedade. É somente analisando sincera e friamente a situação atual que podemos determinar a margem de manobra (cada vez menor) que nos resta e tentar vislumbrar as reformas necessárias para salvar e estabilizar o que persiste em nossa civilização. como Michel Houellebecq notou muito bem quando escreveu sua resenha do meu livro para a contracapa.

Este declínio civilizacional parece preocupá-lo mais do que os discursos que nos alarmam sobre a emergência climática.

O Ocidente só pode estabilizar seu declínio atual se se reconectar com suas raízes e permanecer unido e unido.

Pelo contrário: embora permaneça cético em relação à alegada emergência climática e ainda mais ao impacto dos humanos no quadro desta teoria, a exploração ultrajante dos nossos recursos naturais e o roubo da diversidade e beleza de a natureza em todos os níveis é parte integrante de nosso declínio civilizacional, como foi o caso no final da República Romana. É também por isso que estou convencido de que é essencial não atacar os sintomas, mas as verdadeiras causas: não é apenas reduzindo o CO2 ou outros materiais problemáticos, mas trabalhando na ideologia materialista, consumista e egoísta do mundo moderno que podemos esperar encontrar um novo equilíbrio com a natureza – ao mesmo tempo em que estamos conscientes de que o perigo real para nosso meio ambiente não vem mais da Europa, que já fez imensos progressos, mas sim da Ásia. Além disso, neste contexto, fico sempre surpreso com a dupla conversa de muitos ecologistas: Enquanto, no plano ecológico, preferem defender um “conservadorismo” cada vez mais radical, no plano cultural, defendem um construtivismo extremo: parece que, para muitos deles, o desaparecimento de uma espécie de sapo é mais importante que o da civilização européia… Foi também para sensibilizar o público para a riqueza de nossa cultura e o risco de vê-la diluída ou desaparecer para sempre que escrevi este livro.

FIGAROVOX.– O Brexit pode ser o primeiro sinal concreto da desintegração da Europa que teme?

David ENGELS.- Entre nós, admito que ainda não estou convencido de que o Brexit realmente ocorrerá, embora a nomeação de Boris Johnson possa mudar a situação. Mas não devemos confundir “Europa” e “União Europeia”: durante séculos, o Ocidente está política e culturalmente mais unido do que agora. O desaparecimento ou a transformação da União Europeia enquanto tal não significaria, de forma alguma, uma desintegração da Europa como civilização. Essa desintegração vem principalmente de dentro, não de fora. A destruição da família tradicional, o relativismo cultural, o masoquismo histórico, o pensamento politicamente correto, a tendência de censurar qualquer opinião desagradável, a substituição de comunidades homogêneas e, portanto, unidas por uma justaposição de grupos que buscam apenas o próprio lucro, polarização social, o cinismo com que qualquer noção de verdade absoluta é substituída por “compromissos” negociados – estas são as verdadeiras razões para a desintegração da Europa. Os acontecimentos políticos que assistimos hoje – a transformação da União Europeia na principal defensora do que acabei de enumerar, bem como a vontade não só dos britânicos, mas também dos “populistas” de toda a Europa, de se sacrificarem A unidade europeia, a fim de proteger, pelo menos, a sua própria identidade – são apenas as consequências deploráveis. Porque a verdadeira resposta vem de outro lugar: o Ocidente só poderá estabilizar seu declínio atual se se reconectar com suas raízes e permanecer unido e unido. Infelizmente, esta mensagem só será ouvida quando for tarde demais. o cinismo com que qualquer noção de verdade absoluta é substituída por “compromissos” negociados – estas são as verdadeiras razões para a desintegração da Europa. Os eventos políticos que estamos assistindo hoje – a transformação da União Europeia no principal defensor do que acabo de listar, e a disposição não apenas dos britânicos, mas também dos populistas de toda a Europa, de sacrificar a unidade europeia para proteger, pelo menos, sua própria identidade – não são nada mais do que as consequências deploráveis. Pois a verdadeira resposta vem de outro lugar: o Ocidente só será capaz de estabilizar seu declínio atual se ambos retornarem às suas raízes e permanecerem unidos e unidos. Infelizmente, esta mensagem não será ouvida até que seja tarde demais.

FIGAROVOX.– Você diz que não quer se entregar ao catastrofismo. No entanto, você não é o que se poderia chamar de otimista.

David ENGELS.- Se quisermos manter nossa identidade durante as crises, devemos começar fortalecendo-a e defendendo-a diariamente.

Em primeiro lugar, considero-me um historiador e não posso deixar de observar que todas as grandes civilizações humanas experimentam ciclos históricos mais ou menos semelhantes. Por que o Ocidente seria uma exceção a essa regra milenar? Então, creio ser um observador bastante sensível aos processos que afetam atualmente a nossa sociedade: basta caminhar pelos subúrbios de Paris, Londres ou Bruxelas; viajar pelo campo cada vez mais deserto; para ver em primeira mão o nível educacional de escolas e universidades; estudar a evolução das taxas de juros; discutir com administradores políticos nacionais e europeus cada vez mais desligados da realidade; sentir a desordem e a desilusão de cada vez mais europeus pelo seu sistema político, ver que o Ocidente está mudando radicalmente, e não para melhor. A eclosão da grande crise que todos aguardamos pode talvez ser adiada, com grande custo, por alguns meses ou anos. Mas quando os cofres estiverem vazios e a seguridade social se desintegrar, veremos que os “coletes amarelos” foram apenas o prelúdio de conflitos muito mais violentos. A Europa que dela sairá pouco terá a ver com aquela de que vivemos neste momento as últimas convulsões. Se quisermos começar a conservar pelo menos alguns vestígios do que nos é caro nesta civilização em declínio, a hora é agora … ser adiado ainda mais, com grande custo, por alguns meses ou anos. Mas quando os cofres estiverem vazios e a seguridade social se desintegrar, veremos que os “coletes amarelos” foram apenas o prelúdio de conflitos muito mais violentos. A Europa que dela sairá pouco terá a ver com aquela de que vivemos neste momento as últimas convulsões. Se quisermos começar a conservar pelo menos alguns vestígios do que nos é caro nesta civilização em declínio, a hora é agora … ser adiado ainda mais, com grande custo, por alguns meses ou anos. Mas quando os cofres estiverem vazios e a seguridade social se desintegrar, veremos que os “coletes amarelos” foram apenas o prelúdio de conflitos muito mais violentos. A Europa que dela sairá pouco terá a ver com aquela de que vivemos neste momento as últimas convulsões. Se quisermos começar a conservar pelo menos alguns vestígios do que nos é caro nesta civilização em declínio, a hora é agora …

FIGAROVOX.– Finalmente, este pequeno livro pode ser lido como um guia de sobrevivência para uso individual. Não há realmente mais meios de ação coletiva para conter um declínio que, na sua opinião, parece inevitável?

David ENGELS.- Sim absolutamente! Além disso, insisto várias vezes no fato de que este pequeno guia de forma alguma substitui a atividade política e coletiva; muito pelo contrário: “vita activa” e “vita contemplativa” devem complementar-se para formar uma sociedade verdadeiramente estável. Mas você tem que perceber que a Europa está indo muito mal e que, mesmo no melhor dos casos, ela se encontrará radicalmente mudada em comparação com a Europa em que a maioria de nós foi socializado. Se queremos realmente manter a nossa identidade durante as crises que se avizinham, é mais que tempo de não transferir a responsabilidade para um mundo político amplamente indiferente, até hostil à verdadeira cultura europeia – e que não será fácil de desmascarar durante a noite -, mas para começar defendendo e fortalecendo nossa própria identidade diariamente. De fato, vemos cada vez mais a força interna dessas “sociedades paralelas” que agora dominam nossas metrópoles: se não trabalharmos rapidamente para fortalecer nossa própria identidade, em breve não teremos mais nem mesmo o direito à nossa própria “sociedade paralela”… Agora acabou o tempo em que podíamos contar com a estabilidade do nosso sistema político e cultural; se queremos proteger o nosso patrimônio, a luta deve agora ser dupla: por um lado, devemos transformar cada indivíduo, cada família, cada grupo de amigos numa pequena fortaleza com valores e identidades coesos; do outro lado, devemos desenvolver uma nova ideologia política que combine o conservadorismo cultural e a luta por uma Europa unida (não necessariamente idêntica à União Europeia). Este também é o assunto do meu último livro “Renovatio Europae”, publicado há algumas semanas em versão alemã e, nos próximos meses, em traduções para francês, inglês, polonês, italiano e espanhol, e que está fazendo díptico com Que faire?

Fonte: lefigaro.fr

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