O crepúsculo das esquerdas latino-americanas

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Quem acompanhou com atenção o final do governo da ex-presidente Dilma que culminou no seu impeachment, notou um progressivo esvaziamento do apoio que o petismo recebia da parte da elite social, política e econômica do país. Políticos, empresários e pessoas de destaque social passaram a evitar a proximidade com o que foi considerada a maior rede criminosa que em benefício próprio se apossou do governo de um país.

Enquanto o “Establisment” desertou dos salões petistas, o círculo de frequentadores amigos minguou. Os que restam sem dúvida refletem a fidelidade ao ideal partidário, senão a cumplicidade com o saque do erário público. De qualquer modo, a vitrine petista amarga a exibição de reduzido número de notoriedades cercado de todos os lados por presenças insignificantes.

Apostou-se que a luz no final do túnel seria o Movimento Lula Livre. Veio a tão esperada libertação, lance judicial que aprofundou ainda mais o abismo de descrédito em que caiu o Judiciário brasileiro. O artifício não nimbou a fronte do homem mais honesto deste país com a auréola da inocência. Pelo contrário, os veranistas de Balneário Camboriú no litoral catarinense zombam de sua provisória liberdade e aplaudem o avião da Havan que sobrevoa a orla do mar estadeando uma faixa com dizeres variados, o mais recente: “Eu com o pé na areia e Lula na cadeia!”

O crepúsculo vem descendo sobre o lulismo e o petismo. Lula só comparece a eventos organizados pelo partido com a certeza do aplauso da claque. É vaiado quando vai à rua e identificado por populares. Isso vai se refletir nas eleições municipais no final deste ano. A esquerda não petista já ensaia voo autônomo e faz tratativas de parceria com o partido centrista Democratas. Não só o socialista Ciro Gomes, do PDT: também o DEM quer tirar nacos do eleitorado petista em fragmentação. A jogada política tem o seu risco: o eleitorado pode desdenhar esse banquete com carniça e polarizar ainda mais a figura do presidente Bolsonaro.

Quando se pensa já ter visto tudo na vida, vem mais uma surpresa: o Judiciário paulista determinou a penhora do Toyota Hilux de Ciro Gomes para pagamento de indenização por dano moral ao vereador Fernando Holiday, que é, pasmem, do DEM. Ciro, vice-presidente do PDT, foi condenado por chamar Holiday de “capitãozinho do moto”, numa explosão de sentimento racista.

Nesse ambiente de funeral político em que o lulismo ainda tenta protagonizar, não parece haver mais clima para “brisitas” nem furacões que abalem o Planalto.

Brisas fortes sopraram, no final do ano passado, em alguns dos nossos países vizinhos. O número dois do regime venezuelano, Diosdado Cabello, havia dito que as manifestações violentas de protesto em alguns países sul-americanos eram apenas uma “brisita” vinda da Venezuela, e que depois viria um “huracán”. As “brisitas” já passaram e até agora não veio o furacão. No final da ventania, a Bolívia e o Uruguai mudaram e passaram para o lado certo. Eis o drama da esquerda latino-americana: não se estocam mais ventos como nos tempos de Dilma. E o ventilador venezuelano que produzia as “brisitas” está funcionando precariamente.

Maduro está na fase mais obscura e turbulenta de sua vida. Desconfia de todos. Sua guarda pessoal é toda cubana. Nas últimas aparições públicas se mostrou mais ansioso e assustado do que o habitual. Numa mesma semana pediu duas vezes o diálogo com os Estados Unidos.

O exército venezuelano está desmotivado, desarmado, faminto e humilhado; a deserção é contínua nas suas fileiras. Seu rival, o vizinho exército colombiano, está bem treinado e alimentado. Pior ainda, os colombianos estão fazendo manobras militares em conjunto com o Comando Sul norte-americano.

No começo deste ano, Maduro tentou impedir à força a reeleição de Juan Guaidó como presidente em exercício, barrando sua entrada na Assembleia Nacional. Deu-se mal. Guaidó transferiu a reunião para outro local e foi novamente reinvestido no poder. Depois disso saiu do país para uma turnê internacional muito prestigiosa. Sua figura se agigantou. Se os asseclas de Maduro tocarem num fio de cabelo de Guaidó, no retorno ao país, o fato poderá ser a gota d’água que vai transbordar o copo.

A situação está tão crítica que Maduro ensaia privatizar a indústria petroleira, a joia da coroa, o que terminaria com décadas de monopólio estatal. Iniciou tratativas com russos, espanhóis e italianos. Se Lula ou Dilma tivessem proposto a privatização da Petrobrás, provocariam um terremoto de intensidade máxima na esquerda.

Com Maduro e o bolivarianismo acontece o mesmo fenômeno de esvaziamento e isolamento que marcou o lulismo e o petismo no Brasil. O desespero e os equívocos dos dirigentes socialistas, tanto de lá como de cá, sinalizam o declínio da esquerda e a ascensão da direita.

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