O caso do deputado Daniel Silveira e o perfil moral do ativista de direita

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O deputado federal Daniel Silveira.

A direita divorciada da sabedoria cristã é um engano

Tem-se visto, no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa, manifestações claras de prepotência estatal de caráter totalitário, provenientes de abusos do poder judiciário, legislativo, ou do executivo. Mordaças têm sido colocadas em pessoas públicas ou privadas e em associações, que têm se sentido ameaçadas ou até mesmo caladas. Direitos individuais básicos vem sendo cerceados, como o direito de ir e vir ou a liberdade de opinião e de expressão.

Isto não é novidade para os que há décadas se empenham na defesa dos valores da civilização cristã. Hoje os ativistas de direita se sentem inseguros e já quase sepultados pela espiral do silêncio midiático e pelo cerceamento praticado por algumas redes sociais gigantes. Mas os veteranos de longa data da luta anticomunista conhecem as dificuldades de navegação no vasto oceano da história, onde se levantam ondas gigantes que se abatem com violência sobre a opinião pública, ou calmarias anestésicas que corrompem usos e costumes.

É oportuno recordar um fato ocorrido com a associação anticomunista argentina Tradição, Família e Propriedade. Em novembro de 1969 o regime em vigor no país vizinho era a ditadura militar denominada Revolução Argentina (1966-1973). O bloqueio da imprensa contra a TFP argentina era tremendo. Como furar o bloqueio?

Para furar esse bloqueio a TFP argentina lançou uma publicação intitulada “Diálogo directo de la TFP con el publico argentino”. A TFP argentina foi às ruas para se manifestar e hastear seus estandartes na famosa Calle Florida e em outros lugares de Buenos Aires e de outras cidades. Sem recorrer à violência, dentro da lei e da ordem, com prudência, sagacidade e ousadia, furou o bloqueio midiático e fez ouvir a sua voz no contato direto com o público na rua.

“Est modus in rebus” (Em todas as coisas há uma medida). O pensamento sapiencial de Horácio aponta a moderação, o equilíbrio, a prudência, como meios adequados para fazer as coisas. A TFP argentina na ocasião soube muito bem passar do pensamento à ação. E na ação alcançar o êxito. O seu exemplo me veio à memória ao acompanhar o noticiário sobre o estrepitoso caso do deputado federal Daniel Silveira.

Não é minha intenção tratar aqui dos aspectos jurídicos constitucionais do caso. Quero me limitar tão só à análise de sua atitude pessoal no tocante ao “modus in rebus”. Nem se trata de julgar as intenções subjetivas de um confrade patriota empenhado na defesa de nossos maiores valores. A atenção se focaliza sobre o seu modo de agir que reflete, em última análise, certo modelo equivocado do perfil do ativista de direita.

O que entendo como constitutivo autêntico desse perfil? Antes de tudo, esclareço que o protótipo do ativista de direita é o anticomunista de raiz cristã, mais exatamente o que perfila na direita católica sacral. A palavra “sacral” resume o conjunto de virtudes cristãs, a sabedoria cristã, que abarca inclusive a moderação e a prudência na ação. Não foi o caso do deputado Daniel Silveira.

Com efeito, dos últimos vinte anos até esta parte, foi apresentado ao público brasileiro outro perfil do anticomunista militante.  Fanfarrão, verborrágico, pródigo nos palavrões, no uso e abuso do linguajar de botequim, buscando a vitória na polêmica por meio de acusações pessoais e xingamentos sórdidos. E, como cereja desse bolo indigesto, a manifestação de rompantes temperamentais vizinhos aos surtos psicóticos. Revestido com a capa da imunidade parlamentar, o deputado usou e abusou desse privilégio, bem como se mostrou aluno aplicado de uma escola de anticomunismo defectiva, dada aos ridículos acessos de furor. Disto, aliás, deu mostras Adolf Hitler, o famigerado líder nazista.

Não entenda o deputado que pretendo diminuí-lo ou esmagá-lo enquanto simples pessoa humana ou nobre parlamentar. Pelo contrário. Ao Daniel Silveira e a incontáveis anticomunistas de valor apresento estas observações com amenidade e cortesia, acrescidas de singelo convite.

O povo brasileiro, inteligente e lúcido, não aprecia os acessos temperamentais desequilibrados. Pelo contrário, sente consonância com a serenidade, o equilíbrio e a sabedoria. Disto deu mostras o maior líder católico anticomunista brasileiro ao longo do século XX, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Em todas as polêmicas públicas em que esteve envolvido, sempre espelhou a elevada sabedoria cristã com o seu cortejo de virtudes intelectuais e práticas. Oxalá a lição retirada do recente e lamentável episódio sirva como corretivo aos ativistas e lideranças anticomunistas, para orientá-los à restauração dos costumes da tradição e à prática da sabedoria cristã.

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Andre F. Falleiro
André Fernando Falleiro Garcia é advogado, Católico tradicionalista e anticomunista convicto. Conheceu ainda muito jovem o movimento Tradição, Família e Propriedade e tornou-se desde então discípulo do filósofo e escritor Plínio Corrêa de Oliveira. Atualmente participa ativamente do Círculo Monárquivo Dom Pedro I, da Confraria Tomista e do Instituto Histórico e Geográfico de Ponta Grossa, além de estar presente nas redes sociais. Mantém o site Sacralidade e é articulista do Portal Brasil Livre. Observador e analista da política nacional e internacional e das mudanças profundas pelas quais passa a sociedade temporal, que analisa sob o prisma de "Revolução e Contra-Revolução", também acompanha o desenrolar da crise e do processo de autodemolição interna na Igreja Católica.

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