No panorama venezuelano: clareza ou caos?

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Fonte: Will Grant, BBC News em Caracas

Para certos políticos venezuelanos de oposição ao governo do ditador Maduro, as coisas não são tão claras e categóricas como o são para o governo norte-americano. As narrativas divergem, de modo que os que acompanham o curso dos acontecimentos se perguntam com quem está a razão. É importante entender o caso para fazer a escolha certa. Vejamos o que pensam.

Juan Guaidó, como presidente interino da Venezuela, em oposição ao tirano comunista Nicolás Maduro, iniciou uma turnê internacional muito prestigiosa. Na passagem pelo Canadá, Guaidó comentou que considera positivas as tratativas encetadas com vários países, com o intuito de encontrar uma solução para obter uma rápida transição para a democracia e a realização de eleições livres. Mencionou Cuba, como um dos países com os quais se deve negociar a questão. Mas ressalvou o fato de que “a única coisa que Cuba está fazendo é apoiar Maduro”.

Por sua vez, o Subsecretário de Estado norte-americano para a América Latina, Michael Kozak, rejeitou a possibilidade de que Cuba participe das negociações: “Cuba não é a solução para os problemas do povo venezuelano: esse é o problema. Se realmente quiser ajudar o povo venezuelano, deve começar por tirar os seus torturadores e seus agentes de contra-inteligência do país”.

É claro que são declarações opostas. Conforme o lado que se adote, a tomada de posição tem consequências enormes: clareza ou confusão, liberdade ou tirania.

Maduro está disposto a prosseguir o estreito relacionamento com Cuba. De fato, dias atrás, afirmou que o embaixador cubano, Dagoberto Rodriguez, deve ter as portas abertas para entrar no Conselho de ministros venezuelano e fazer parte dele. Mais ainda: “portas abertas em cada ministério, para coordenar, para participar”.

A escandalosa ingerência cubana no governo da Venezuela não é novidade. Desde que Hugo Chávez subiu ao poder, em 1999, milhares de cubanos entraram na Venezuela para administrar as estruturas do poder em Caracas: serviços de inteligência, forças armadas, serviço sanitário, economia etc. O general aposentado Antonio Rivero explicou que Chávez abriu a porta aos cubanos e Maduro as mantém abertas. O “Convênio Integral de Cooperação Cuba-Venezuela”, em vigor há vinte anos, é o documento que oficializa a colonização cubana na Venezuela e o saque dos seus recursos, a começar pelo petróleo.

Juan Guaidó, em janeiro de 2019, tornou-se presidente interino do país, e o presidente norte-americano, Donald Trump, em seguida o reconheceu oficialmente. Mas Guaidó logo perdeu grande parte da confiança popular, graças às negociações obscuras e concessões que fez ao chavismo. No recente giro internacional, disse em Davos que o chavismo é uma rede criminosa e que necessita de ajuda para combatê-la, pois “sozinhos não podemos”. Depois de viajar à Davos para o Fórum Econômico Mundial, em Paris Guaidó foi recebido pelo presidente francês, Emmanuel Macron, e em Londres pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Depois viajou a Madri, onde foi recebido pela ministra das Relações Exteriores, mas não pelo chefe de governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez. E logo em seguida, no Canadá, anunciou sua disposição de negociar com os cubanos, os chefes da rede criminosa e do terrorismo latino-americano. Não poderia haver maior incongruência nas palavras e contradição nas atitudes.

Parte da oposição venezuelana é íntegra, e está sendo torturada pelos agentes cubanos nas masmorras do regime. A “oposição oficial”, a que está sentada nas cadeiras do parlamento, liderada pelo Guaidó, considera o chavismo como uma força política respeitável e não como uma rede criminosa e terrorista. E passa o tempo em negociações, diálogos, disputa de espaços, comícios. Pesa sobre Guaidó a suspeita de que seja um colaboracionista, um socialista disfarçado, fabricado sob medida para garantir ao regime cubano-bolivariano uma sobrevida.

Qual a saída para a atual situação? Uma delas seria esperar uma mudança comportamental profunda em Guaidó e na “oposição oficial”, que lhes dê a credibilidade de que carecem perante a nação. Mudança profunda e radical, para que deixem de fazer o jogo da confusão que convém à continuação de Maduro no poder.

Outra opção seria o descarte de Guaidó e sua comitiva, para darem lugar a uma liderança autêntica. Esta teria como um de seus focos o fortalecimento dos vínculos com o Departamento de Estado norte-americano. Sim, é preciso negociar com Michael Kozak, fazer com ele uma frente ampla internacional contra o castrobolivarianismo, para o corte dos tentáculos operativos do Foro de São Paulo, a internacional socialista latino-americana. E no plano interno, aglutinar uma coalizão militar disposta a derrubar o tirano, desmantelar a sua rede criminosa terrorista e restaurar a independência do país.

Há coerência nas atitudes do governo Trump. O chefe militar do Comando Sul dos Estados Unidos, o almirante Craig Faller, ao discursar recentemente perante o Senado de seu país, referiu-se à profunda crise em que está imersa a Venezuela, e afirmou que “Rússia, Cuba e China sustentam a ditadura ilegítima de Nicolás Maduro”. E o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, em sua recente viagem a Londres, advertiu que o Partido Comunista que governa a China é “a principal ameaça de nosso tempo” aos princípios democráticos ocidentais, por ter objetivos que não são consistentes com esses grandes valores.

Em suma: do lado norte-americano há clareza conjugada com firmeza. Da parte de Guaidó e de outros parlamentares da oposição venezuelana, há incongruência e confusão. Espera-se que façam as escolha certas, o que é crucial para a Venezuela e todo o continente.

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