Modernismo e clericalismo: o que pensar?

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Pudemos ler nas últimas semanas um artigo nefasto publicado pela Sra. Zita Ballingee Fletcher no “National Catholic Reporter”, dos Estados Unidos, texto terrivelmente ofensivo aos católicos tradicionais e aos sacerdotes que rezam a Missa Tridentina. Passaremos a algumas considerações que devem ser fundamentais para quem começa a se informar sobre o tema.

Desde a sua fundação por Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, a Santa Igreja Católica nos ensina que o Santo Sacrifício da Missa é, não apenas uma cerimônia ou um conjunto de cerimônias, mas sim a perfeitíssima renovação incruenta do sacrifício feito pelo Homem-Deus no Calvário do Gólgota. A Santa Missa é, portanto, um sacrifício de natureza latrêutica, isto é, de louvor ao Deus verdadeiro, expiatória, para expiação de nossas faltas, deprecatória, para pedir-lhe novas graças, e eucarística, para oferecer a Deus Todo-Poderoso nossas ações de graças. Todas essas funções estão contidas na liturgia do Santo Sacrifício por meio de suas inúmeras rubricas, que servem para expressar a fé da Igreja e as verdades relativas à natureza da Missa, tão atacadas pelos hereges ao longo dos séculos.

Tragicamente, nos últimos 50 anos vimos uma revolução nuca antes vista na História, iniciada pelo Concílio Vaticano II. O modernismo, a síntese de todas as heresias, condenado de forma enérgica por São Pio X, o seráfico pontífice que viveu na aurora do século XX, subiu de sua ação antes sub-reptícia e tomou assento no recinto sagrado da Santa Madre Igreja. Por meio de uma imensa quantidade de prelados já seduzidos pelos erros da Revolução na esfera temporal, começou a Revolução na esfera religiosa. Como dizia o Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, o Vaticano II foi a Assembleia dos Estados Gerais da Igreja. A revolução eclesiástica degradou de tal forma a estrutura que hoje o mundo conhece como Igreja, que quase não a podemos reconhecer. Não fosse a promessa do Redentor de que a Igreja jamais seria vencida pelas portas infernais, teríamos a mais absoluta certeza de sua morte e desaparecimento. Na Nova Igreja não encontramos fé, reverência, pureza de costumes, veneração aos sacratíssimos mistérios sacramentais, mas sim o desprezo por tudo que um católico deve amar, venerar, reverenciar.

Da Revolução Conciliar saiu a Revolução Litúrgica, mais precisamente o Novus Ordo Missae, promulgado por Paulo VI em 1969, com o desmonte veloz e totalitário de todas as rubricas e cerimônias da Santa Missa conforme havia sido rezada e venerada por incontáveis milhões de católicos e inúmeros santos ao longo da História. Os símbolos do sacerdócio hierárquico foram eliminados, as expressões de adoração ao Santíssimo Sacramento e a afirmação de verdades católicas foram suprimidas até ao quase desaparecimento, o que devia ser o Sacrifício Incruento de Cristo Nosso Senhor tornou-se como um memorial impregnado de sentimentalismo, histeria e, é lastimável dizer, de sacrilégio. O culto mais sagrado de nossa religião e instituído pelo próprio Deus foi substituído por uma caricatura anglo-luterana, como o próprio liturgista responsável pela sua confecção, Annibale Bugnini, um conhecido maçom, confirmou.

A desorientação diabólica da Igreja pós-conciliar é tamanha, que publica-se um artigo como o da Sra. Zita Ballinger Fletcher em uma revista que teoricamente se apresenta como católica, em 5 de novembro de 2019. A comentarista, por sua falta de fé e formação, coisa típica dos fíeis da Nova Religião, é incapaz de compreender a busca que atualmente muitos jovens fazem pela Missa Tridentina, que foi compilada por São Pio V (compilada, não feita, uma vez que, em sua essência, já existia desde os tempos apostólicos). Ela acusa também aos sacerdotes tradicionais de “clericalismo” porque um deles recusou-se a ministrar a Sagrada Comunhão em suas mãos (seguindo o ensinamento tradicional da Igreja, segundo o qual apenas os sacerdotes, que tem as mãos consagradas para tal, podem tocar na Sagrada Forma.

Sra. Fletcher, nosso catecismo nos ensina que o sacerdote empresta seu corpo ao próprio Cristo para a realização do Santo Sacrifício. É o ato mais sublime e mais sagrado que pode existir sobre este mundo. Nosso Senhor Jesus Cristo é o modelo de sacerdote, e renova Seu perpétuo Sacrifício sempre que uma missa válida é celebrada pelas mãos de um sacerdote. Os fiéis não possuem este poder, nem esta grandeza, não são capazes de exercer tão sagrado ministério. Ensina Santo Tomás, que é o sol de todos os santos doutores, que somente as mãos consagradas podem tocar na Sagrada Eucaristia. A comunhão nas mãos ofende gravemente a hierarquia sacerdotal, ofende gravemente a reverência devida aos Sagrados Mistérios, e, quase sempre, nos leva aos mais terríveis sacrilégios.

A noção de Missa da Sra. Fletcher nada mais é do que uma prova da atmosfera protestante que reina nos ambientes do Novus Ordo: onde não há graus hierárquicos visivelmente definidos, o padre é tão somente um presidente da assembleia, onde há uma tendência à crença de que todos os fiéis são sacerdotes da mesma maneira que o sacerdote propriamente dito, e onde não há o menor respeito ou a menor consideração pela expressão da fé por meio da Sagrada Liturgia. Podemos dizer mais: sabemos que tais erros não são em nada recentes. Lutero, Cranmer, Calvino, já pensavam sob os mesmos sistemas muito antes de a pobre Sra. Fletcher escrever seu trágico artigo. A noção de sacerdócio hierárquico, independente dos fiéis, é veementemente antiprotestante, expressa a santa desigualdade querida por Deus para a Santa Igreja. A Missa não é apenas uma reunião de assembleia, como um congresso de deputados, em que todos têm a sua vez de falar, mas um Sacrifício que apenas os que receberam o Sacramento da Ordem são capazes de operar.

A Missa Tridentina, em suas complexas cerimônias, nos traz todas essas verdades por meio de símbolos, razão pela qual os católicos tradicionais quase sempre são crentes em todas as verdades ensinadas pela Santa Igreja, são verdadeiramente ortodoxos, ao contrário dos participantes do Novus Ordo. Lex orandi statuat legem credendi. Pessoas como a Sra. Fletcher encarnam perfeitamente a ideia principal do modernismo, que é a evolução de dogma. O que antes não podia, agora pode. Deus então seria adaptado ao tempo, o que é uma heresia crassa. Desgraçadamente, é o que reina hoje em Roma. A abominação da desolação instalada no lugar santo está diante dos nossos olhos. Que faremos diante do quase desaparecimento da fé católica? Humanamente, nada podemos fazer além de rezar. A Santíssima Virgem nos deixou em Fátima a fórmula para nossa salvação: o Imaculado Coração de Maria e o Santo Rosário. Por meio desses dois tesouros trazidos do céu para nós (quando a Irma Lúcia provavelmente já sabia o que sucederia na Igreja) são os meios providenciais que temos para vencer a escuridão do modernismo e de sua seita instalada sob as estruturas da Igreja, como parasita que leva o hospedeiro à morte.

Tudo por Maria, em Maria, com Maria!

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