Manifesto A-humano: a face diabólica da ecologia

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Foto: Divulgação

A escritora Patricia MacCormack, professora universitária no Reino Unido, lançou mais um livro, em janeiro de 2020 em Cambridge, intitulado “The Ahuman Manifesto – Activism for the End of the Anthropocene” (O Manifesto A-humano – Ativismo para o Fim do Antropoceno). Como vamos ver a seguir, diante do radicalismo de Patricia MacCormack, a pirralhice de Greta Thunberg parece coisa de conto de fadas.

MacCormack propõe a extinção da raça humana para assim salvar a Terra, que tem sofrido muito na era do Antropoceno por culpa da ação humana. O Antropoceno, criação artificiosa de intelectuais e cientistas ao serviço do globalismo, é a era geológica em que as atividades humanas passaram a ter um impacto global no clima e nos ecossistemas, desde a introdução da agricultura ou, mais proximamente, desde a invenção do motor a vapor em 1784, ou ainda, desde os anos 1950. Patricia odeia tanto o Antropoceno que intencionalmente se refere a ele sempre em letra minúscula.

Argumenta que durante o Antropoceno tem havido um imenso dano aos animais e plantas e que é preciso repará-lo. Participam dessa culpa o capitalismo, o patriarcado, a maternidade, a raça branca, a religião cristã etc.

A escritora britânica não está sozinha. Faz parte do Movimento pela Extinção Humana Voluntária (VHEMT, em inglês), presente em vários países, cujos integrantes consideram que a solução para a mudança climática não está na redução das emissões tóxicas de carbono ou do uso excessivo de sacolas plásticas, mas na natalidade. E propõem salvar a Terra de forma voluntária e pacífica pela redução paulatina da raça humana. Isto é dito, no site desse movimento, com estas palavras:

“Quando cada ser humano decidir parar de se reproduzir, a biosfera terrestre poderá voltar à sua antiga glória, e todas as outras criaturas serão livres para viver, morrer, evoluir e talvez desaparecer, como tem acontecido com tantas ‘experiências’ da Mãe Natureza ao longo dos tempos. É assim que a saúde voltará à biosfera terrestre”.

O extincionismo humano tem íntima relação com a ecologia profunda (“deep ecology”). Da visão tradicional em que o homem é o centro e age como rei da natureza, se passa ao ambientalismo que propõe a igualdade entre o homem e os animais e plantas, e se chega à ecologia radical, em que o homem aparece como o maior predador do universo e inimigo da Mãe Terra.

A extinção da raça humana é a inevitável consequência lógica desse desvario ideológico e filosófico. É uma falsa solução para um problema que não é real, a crise ecológica crescente produzida pela mudança climática, que não passa de espantalho criado pelos operadores da nova ordem mundial para espalhar o medo de uma ameaça global inexistente.

Os argumentos extincionistas podem parecer extravagantes, mas são apresentados em muitas universidades do Ocidente, em congressos nacionais e internacionais, em órgãos da mídia, e acabam depois se transformando em leis nos parlamentos e nos governos, como explicou Jean-François Braustein, em “A filosofia enlouquecida: o gênero, o animal, a morte.” (“La philosophie devenue folle: Le genre, l’animal, la mort”).

A escritora britânica é uma feminista radical, seguidora da filosofia de Gilles Deleuze, de Félix Guattari e de Peter Singer, autor de “A libertação animal”. Patricia MacCormack não conduz ao niilismo e desespero, mas convoca ao ativismo militante e otimista em matérias como a extinção humana, a dieta vegana, o ocultismo ateu, a cultura da morte, a recusa de políticas de identidade, a ecologia profunda e o apocalipse. Especializada na temática LGBT, pós-humanismo e direitos dos animais, adotou a alimentação vegana em suas práticas de vida. E se declara extincionista: é uma campeã da luta pela extinção da espécie humana.

O manifesto explora cinco temas-chave contemporâneos: identidade, espiritualidade, arte, morte, apocalipse. Como ela mesma afirma no prefácio de seu livro: não é um tratado acadêmico, é um chamado radical à ação, um apelo para o engajamento nas artes humanas e práticas ativistas, inspirado na espiritualidade “queer” feminista (secular), e no ativismo da cultura da morte.

Ela adota o posicionamento de outra corrente pérfida, o antinatalismo, que também possui conotação gnóstica, por se opor à perpetuação da espécie, ao alegar que os filhos biológicos não foram consultados sobre o seu nascimento. Afirma Patricia:

“Longe de defender a morte em massa, genocídio ou eugenia, meu manifesto é antinatalista. Ele boicota a reprodução humana devido aos danos que os humanos têm perpetrado sobre a Terra e seus outros habitantes”. (2)

No prefácio de seu livro, Patricia expõe claramente seu igualitarismo radical: “Este é um manifesto que repudia a hierarquia, rejeita que alguns direitos humanos possam ter algum privilégio sobre outros, e que os direitos humanos possam ter algum privilégio em relação aos direitos não humanos”. Diz ainda: “A fim de desmantelar o domínio do humano, procurei não mais discutir como uma humana, com outros humanos. Por esta razão, o termo ‘a-humano’ refere-se a uma forma alternativa de escrita e de leitura que, definitivamente, encontrará resistência, mas que envolve tornarmo-nos sensíveis, disponíveis, responsáveis e cuidadosos de diferentes maneiras. Peço ao leitor que esteja atento a esta exigência”.

A autora criou o novo termo “a-humano”, que vai além dos binários do humano e do não humano, para indicar o mundo pós-humano no qual a ameaça do colapso ecológico estaria extinta. Numa entrevista concedida ao Cambridge Independent, ela reafirma seu igualitarismo radical:

“‘A-humano’ é um termo que eu inventei, que reconhece que temos resíduos humanos e responsabilidade, mas mostra que queremos recusar privilégios humanos e hierarquias de vida feitas pelo homem”.

O extincionismo de Patricia MacCormack vai além do marxismo clássico e do marxismo cultural com sua “agenda gay”. Não se trata de uma luta de sexos análoga à luta de classes, de lançar à guerra aos heterossexuais contra os homossexuais ou transexuais. O extincionismo, como a teoria de gênero, quer apagar nas profundidades da psicologia humana a noção bíblica da identidade sexual de homem ou mulher, e vai mais longe ao propor a voluntária extinção da espécie humana. Não admite a perpetuação da espécie conforme o “Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra” (Gn 1, 28). Patricia não faz o aceno enganador da felicidade humana alcançada em um paraíso terreno utópico.

Para ela o futuro é o cemitério universal de humanos, enquanto os animais e as plantas crescem e se multiplicam, nutridos pelas dádivas da Mãe Terra, a Pachamama grávida venerada pelo Papa Francisco, que dá à luz aos seres não humanos. Vai às últimas consequências da ecologia profunda impregnada de neopaganismo. Há nisso um requinte de maldade verdadeiramente diabólico, quando o homem racional se coloca como inferior ao animal bruto e depois odeia e conspira contra a presença do gênero humano na terra. Em suma, a mística de Patricia MacCormack é realmente diabólica, a do apocalipse do antropocentrismo, mas edulcorada com pitadas de otimismo e de ternura em relação aos humanos ainda vivos, como é sugerido aos ativistas:

“O VHEMT é uma causa pela qual viver, não pela qual morrer. Que possamos viver muito tempo e desaparecer”.

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