Ignorado pela OMS, Taiwan é país com melhor resposta ao coronavírus no mundo

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A staff wears a face mask with a Taiwanese flag design, as protection due to the coronavirus disease (COVID-19) outbreak, at a factory for non woven filter fabric used to make surgical face masks, in Taoyuan, Taiwan, March 30, 2020. REUTERS/Ann Wang / Divulgação.

Por Bruno Schönhofen para Estudos Nacionais

Com cerca de 23,7 milhões de habitantes, uma das maiores densidades populacionais do mundo (650 hab./km²) e, curiosamente, grande proximidade geográfica com a China – país onde a pandemia foi originada -, Taiwan é o país que apresenta possivelmente a melhor resposta ao coronavírus em todo o mundo, com apenas 442 casos confirmados e 7 mortes pelo vírus [1], até a data em que este artigo foi redigido.

O país, no entanto, é ignorado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) devido o lobby chinês e isso explica a escolha da Suécia como exemplo mundial, país que não teve grandes êxitos se comparado a Taiwan.

Os resultados impressionantes de Taiwan renderam até mesmo o surgimento do termo “Taiwan Model”, usado pelo Departamento de Estado dos EUA, em 8 de abril, como “algo que os EUA e Taiwan querem compartilhar com outros países ao redor do mundo”. O documento do Departamento de Estado também afirma que “Taiwan é um líder na prevenção da propagação do COVID-19” [7]. Até mesmo Bill Gates, conhecido por ideias globalistas e por ser grande apologista da vacinação mundial em massa, afirmou em entrevista que “nenhum país tem um assentamento perfeito. Taiwan chega perto”. [8]

O governo de Taiwan optou por não aplicar o lockdown como foi aplicado em diversos lugares dos EUA e em diversos países europeus, por exemplo. Em vez de quarentenar a todos, preferiu quarentenar viajantes que vinham do exterior para o país, enquanto o resto do país prosseguiu com suas atividades, com algumas restrições como uso de máscaras e práticas de isolamento social. Além do menor efeito na economia, o país teve também, possivelmente, a melhor resposta na contenção da propagação do vírus no mundo[9][10][11].

Algumas medidas, como o registro do isolamento pelos aparelhos celulares e as multas para transgressores do isolamento se assemelham a algumas medidas tomadas em estados brasileiros, mas o modelo de não adoção do lockdown e de adoção apenas do isolamento social (que pode ser chamado de “vertical”) que caracterizou o “Taiwan Model”, foi pouco defendido aqui no Brasil, tendo poucos propugnadores além do governo federal de Jair Bolsonaro. Tardiamente, órgãos de imprensa começam a louvar o modelo sem lockdown e até mesmo a OMS o fez, preferindo, no entanto, em vez de Taiwan, citar a Suécia, que, no entanto, não tem os números impressionantes do país asiático [12].

O silêncio da OMS a respeito do admirado “Taiwan Model”, no entanto, pode ser explicado pela força imensa do conhecido lobby chinês sobre a instituição e, atualmente, sobre seu diretor-geral Tedros Adhanom, apoiado pela ditadura chinesa para o cargo. A China não reconhece Taiwan como um país e afirma que a ilha – que tem um regime democrático e livre, a diferir do regime comunista chinês – pertence a seu território. Portanto, desde 2016, Taiwan foi excluída até mesmo da condição de “observador” nas reuniões da OMS.

O enorme poder do Partido Comunista Chinês sobre os diretores da OMS é antigo e ficou mundialmente mais conhecido no episódio em que foi vazado um memorando da OMS, a princípio planejado para ser confidencial, que orientava os membros a se referirem a Taiwan como “a província chinesa de Taiwan” [13]. No entanto, nota-se que o lobby chinês tem sido ainda mais intenso sobre a atual diretoria.

Causou revolta nas redes sociais o vídeo em que o superior da OMS Bruce Aylward, em entrevista a jornalista da RTHK, não responde quando ela pergunta se a OMS consideraria a possibilidade de Taiwan tornar-se membro da organização, logo depois dizendo que não ouviu e que gostaria de passar para outra questão. Após a jornalista insistir na questão, Aylward desliga o vídeo. Após nova ligação, quando perguntando de novo sobre Taiwan, Aylward responde que “nós já falamos sobre a China” e que todas as áreas da China estão indo bem, antes de despedir-se e desligar a ligação.

Esses e outros fatos têm levado comentaristas e especialistas a criticarem a extrema corrupção da OMS [14]. Antes mesmo da crise do coronavírus, a corrupção e a falta de responsabilidade dos líderes da OMS chocaram o mundo: em 2017 a Associated Press revelou que a instituição gasta mais em viagens de primeira classe e em hotéis 5 estrelas do que no combate à AIDS [15]. E a ABC News divulgou a conclusão de uma auditoria interna de que a divisão da OMS que lidera a resposta ao coronavírus é tão cronicamente subfinanciada que isso repetidamente se tem apontado como um perigo “severo” e “inaceitável” [16].

No entanto, apesar do silêncio da OMS, o “modelo taiwanês” foi devidamente louvado por diversas autoridades, como Richard Ebright, renomado biólogo molecular na Rutgers University, em New Jersey, que diz que Taiwan fez um “trabalho excepcional” na resposta à crise e que, se Taiwan fosse um membro da OMS, “nós saberíamos pelo menos 2 semanas antes da ameaça que estamos enfrentando” [7].

Taiwan avisou a OMS sobre a pandemia e foi ignorada

A afirmação de Ebright refere-se a um fato notável, que parece tornar ainda mais admirável a atuação de Taiwan nesta crise, e mais insustentável a posição da OMS e do Partido Comunista Chinês: Taiwan, através de seu Centro de Controle de Doenças, mesmo excluído das reuniões da OMS, avisou a organização, em e-mail datado de 31 de dezembro de 2019, sobre a transmissão humana do vírus identificado na província chinesa de Hubei – é o que alegam oficiais taiwaneses. Ainda em 14 de janeiro de 2020, a OMS twitaria que investigadores chineses “não haviam encontrado evidência clara de transmissão humana do vírus” [7]. O Partido Comunista Chinês também perseguiu e prendeu jornalistas e médicos que falaram publicamente sobre o vírus, como o icônico Li Wenliang, médico preso por alertar colegas seus sobre o vírus, e que acabou morrendo infectado com ele, tornando-se símbolo da luta pela liberdade de expressão nos protestos do povo chinês [17].

Enquanto o governo chinês e a OMS diminuíam, em suas declarações públicas, o tamanho da pandemia, Taiwan tomou medidas precoces, fechando fronteiras, fazendo testagem e produzindo e distribuindo máscaras para a população. Samson Ellis, chefe da agência de Taipei (Taiwan) da Bloomberg News, acredita que, paradoxalmente, o isolamento de Taiwan da OMS (estabelecido pela própria OMS para atender interesses da ditadura chinesa) ajudou o país a ter essa defesa contra a pandemia, forçando-o a confiar em seu próprio julgamento sobre a questão [18], enquanto os constantes erros e ocultações promovidos por China e OMS levaram o mundo inteiro a não tomar as medidas devidas.

[1] Dados verificados em https://www.worldometers.info/coronavirus/ a 20/05/2020.
[2] Dados verificados no Wikipédia a 20/05/2020.
[3] https://time.com/5805629/coronavirus-taiwan/
[4] https://edition.cnn.com/2020/04/04/asia/taiwan-coronavirus-response-who-intl-hnk/index.html
[5] https://www.nbcnews.com/health/health-news/what-taiwan-can-teach-world-fighting-coronavirus-n1153826
[6] https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2762689
[7] https://www.nbcnews.com/news/world/taiwan-s-coronavirus-success-bolsters-case-joining-who-experts-say-n1179196
[8] https://www.ft.com/content/13ddacc4-0ae4-4be1-95c5-1a32ab15956a
[9] https://healthimpactnews.com/2020/taiwan-no-lockdowns-no-closed-businesses-non-who-member-and-relatively-unaffected-by-covid-19/
[10] https://theprint.in/opinion/china-style-lockdown-not-the-only-way-to-deal-with-covid-19-democracies-learn-from-taiwan/382143/
[11] https://www.nbcnews.com/news/world/taiwanese-authorities-stay-vigilant-virus-crisis-eases-n1188781
[12] https://nypost.com/2020/04/29/who-lauds-sweden-as-model-for-resisting-coronavirus-lockdown/
[13] https://www.csmonitor.com/World/Asia-Pacific/2011/0512/Outrage-over-WHO-memo-kicks-off-Taiwan-presidential-race
[14] https://www.youtube.com/watch?v=AwFTZawOc9k
[15] https://apnews.com/1cf4791dc5c14b9299e0f532c75f63b2/AP-Exclusive:-Health-agency-spends-more-on-travel-than-AIDS
[16] https://www.abc.net.au/news/2020-02-17/coronavirus-who-underfunded-internal-corruption-allegations/11970382
[17] https://www.bbc.com/news/world-asia-china-51409801
[18] https://nypost.com/2020/04/25/taiwan-was-the-only-nation-with-a-correct-coronavirus-response/

* Bruno Schönhofen é médico formado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

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