Guerra dos Mundos

0

Muitos acreditam que há vida fora do planeta terra e, inclusive, outras civilizações mais avançadas. Esses alienígenas seriam dotados de poderes especiais e teriam uma inteligência muito desenvolvida – um sinal disso é que parece que eles não ouviriam funk. Após invadir a terra e escravizar os seres humanos, eles roubariam todos os nossos recursos naturais. O filme: “Guerra dos mundos”, estrelado por Tom Cruise, ilustra muito bem este cenário e atiça a imaginação dos caçadores de OVNIS.

Às vezes, para compreendermos algo, é necessário subir a um plano superior, macro e abrangente e, deste patamar, contextualizar a questão que queremos entender. Foi isso que ocorreu comigo quando soube da recente decisão do duque de Sussex, Harry, e de sua esposa, a duquesa Meghan Markle. Os dois resolveram abandonar suas responsabilidades junto ao trono britânico e levar uma vida independente da realeza, no Canadá. Quando li a notícia, procurei imediatamente subir de plano e agarrar-me a uma imagem ou metáfora capaz de exprimir e simbolizar minha primeira impressão sobre o fato. Surgiu em minha mente o filme com Tom Cruise, mencionado acima. Explico o porquê.

Meghan sempre me pareceu uma alienígena que tinha caído do espaço e invadido aquele pequeno e grande mundo que é a casa real britânica. É proveniente de um ambiente muito diferente do que vive a rainha Elisabeth e os outros membros da monarquia inglesa. Embora Meghan tenha sido bem recebida na casa real, é impossível não ver neste casamento uma forte nota de heterogeneidade. Harry e Meghan provém de ambientes culturais heterogêneos, de mundos totalmente diferentes e até antagônicos e que estão em guerra entre si, já que um é liberal e o outro conservador.

(Photo credit should read DANIEL LEAL-OLIVAS/AFP/Getty Images)

O mundo conservador

Por mais que parte da monarquia britânica tenha sido infectada em maior ou menor grau por ideias liberais, como, por exemplo, pelo ambientalismo, ela continua a exercer um papel profundamente conservador. E é curioso que no mundo multiculturalista, fluído e Orwelliano que vivemos, por contraste, tenhamos também uma contrapartida tão vistosa e simbólica: uma família real, nobre, aristocrática. É quase como um conto de fadas, que representa os valores da nação e suas instituições multisseculares, com toda a profundidade e concretude que possuem. Assim, a monarquia britânica e a tradição que representa, dá o sentido histórico, o senso de identidade e  equilíbrio para o país e lhe é altamente benfazejo.         

É próprio da mentalidade conservadora considerar que existem obrigações morais que independem de nossa escolha. Que já existiam antes de nós existirmos e que estamos destinados a cumpri-las. Assim são nossas obrigações com a família, com a pátria, a Igreja e com a sociedade como um todo. Neste sentido, a família real inglesa é a família por excelência para os britânicos, seu simbolismo inclusive excede as fronteiras do Reino Unido.

Portanto, ao nascer um membro da família real, por representar a pátria, tem obrigações morais e compromissos com esta, e sua dedicação ao bem comum será um símbolo da dedicação e da responsabilidade que cada britânico tem com sua família e sua pátria, em uma escala menor. A mentalidade que a monarquia inglesa inspira em seus cidadãos – sem dizer uma única palavra – é a mentalidade conservadora.

THE CANADIAN PRESS/Graham Hughes

O mundo liberal

Por outro lado, por mais que pudesse ter tentado se adaptar, o mundo que Meghan “invadiu” representa, sem fazer esforço nenhum ou tentar impor-se, o contrário de tudo o que ela acredita. Nascida em Los Angeles, capital do Estado mais esquerdista e liberal dos Estados Unidos, foi atriz e frequentou os altos e badalados círculos das celebridades de Hollywood. Se auto proclama uma feminista, pro-choice – nome bonito para abortista –, enfim, uma liberal perfeita e acabada.

Bem, acontece que uma das características do espírito liberal é que ele repudia todas as obrigações morais que não sejam aquelas que o indivíduo aceitou livremente. Ora, entrar para uma família real pressupõe o mínimo de aceitação das responsabilidades inerentes à posição e status que se está assumindo. Afinal, ninguém a obrigou a virar duquesa; ela sabia claramente que o casamento exigia o sacrifício de inúmeros confortos e liberdades burguesas.

Sem uma disposição refletida e sincera de assumir tais responsabilidades, Meghan jamais poderia ter aceitado casar com Harry, sem correr o risco de parecer desonesta em alguma medida com o príncipe e com a Rainha Elisabeth, que a aceitou na família real e depois se viu fraudada com a situação embaraçosa que foi criada.

Todo esse caso, da renúncia de Harry e de Megan às responsabilidades com a família real e o povo britânico, nos ensina a profunda diferença que existe entre a mentalidade conservadora e a liberal, e que essa diferença tem seus desdobramentos sobre a própria ideia de família. De como o liberalismo lida com esse senso milenar de obrigação moral com aqueles que o trouxeram à vida, criaram e nutriram você, sem que você os tenha escolhido para a tarefa.

Quando se trata da base mais importante do florescimento humano, a vida familiar, o liberalismo não tem nada ou muito pouca coisa a dizer, além de nos lembrar que algumas famílias são destrutivas e disfuncionais, então é melhor fugir delas. O liberalismo diz: seja você mesmo, liberte-se! E foi justamente o que Harry e Meghan fizeram. Por isso é possível que entrem para a história como tendo encarnado um belo conto de fadas dos Irmãos Grimm, só que às avessas. No caso dos dois, o príncipe – ao ser beijado – se transforma em sapo.

Só resta ver agora se este conto terá um final feliz, o tempo dirá.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor registre seu comentário
Por favor, digite seu nome aqui