Endividar para reinar: a ameaça do neocolonialismo chinês

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Como a China escraviza os países subdesenvolvidos sob o pretexto de ajudá-los

Por Henrique Ortiz em Estudos Nacionais

O caso cingalês

O Sri Lanka, também conhecido como Ceilão ou Taprobana – assim aparece na primeira estrofe de Os Lusíadas –, é uma pequena ilha situada ao sul da Índia. Da mesma forma que a maior parte dos países subdesenvolvidos, enfrenta graves problemas de infraestrutura. Foi o que legitimou o projeto do Presidente Mahinda Rajapaksa, que governou o país entre 2005 e 2015, de construir um porto novo e moderno na localidade de Hambantota – não por acaso, o lugar onde nascera e se concentrava seu curral eleitoral. Só havia um empecilho: o financiamento.

O ex-Presidente do Sri Lanka, Mahinda Rajapaksa, em visita a Xi Jinping.

Promessas socialistas

A Companhia de Engenharia Portuária Chinesa (CHEC) é uma gigante estatal sediada em Pequim. Produto da fusão de duas estatais anteriores, a empresa ganhou impulso após o lançamento da Iniciativa Cinturão e Rota, em 2013.

Vendida pelas autoridades chinesas como a “nova rota da seda” e “o segredo para um futuro mais próspero para a humanidade”, a Iniciativa Cinturão e Rota é a plataforma pela qual a Terra do Meio busca consolidar sua hegemonia global. Para tanto, promove a implantação de uma vasta rede de infraestrutura terrestre e marítima, desenvolve programas voltados à integração cultural e política e, sobretudo, concede empréstimos  para os países pobres da Ásia, da África e da América Latina.

Mapa ilustrando os corredores da Iniciativa Cinturão e Rota.

Em 2008, alegando interesses puramente comerciais, a CHEC ficou encarregada da construção do porto de Hambantota.

As promessas eram altissonantes: o porto seria uma das maiores obras de engenharia do século XXI, se transformaria com o tempo na principal instalação do gênero no Sul da Ásia e, last but not least, elevaria a renda per capita do Sri Lanka como um todo ao patamar dos países desenvolvidos. Sounds familiar, hã?

A cerimônia de inauguração, ocorrida em 2010, custou 140 milhões de rúpias (cerca de 800 mil dólares), e ostentou a participação de celebridades e artistas pop, bem como discursos inflamados enaltecendo a amizade sino-cingalesa.

Não demorou muito, contudo, para que os problemas viessem à tona.

A inauguração do Porto de Hambantota.
O porto em funcionamento.

Uma invasão pacífica

Como estudos anteriores haviam demonstrado – estudos devidamente abafados pelos chineses –, o porto de Hambantota não era capaz de competir com a maior e mais antiga instalação portuária da região, situada na cidade de Colombo. Apesar de localizar-se numa das rotas marítimas mais trafegadas do mundo, cuja fama remonta à era das Grandes Navegações, o elefante branco, no auge das suas operações, nunca atingiu mais de 34 embarcações/ano. Por conseguinte, a dívida com os chineses começou a aumentar – de início pouco, mas logo exponencialmente. Tentativas de renegociação esbarraram, vez após outra, na intransigência dos credores. Por fim, sobreveio o desfecho fatal.

Em 2015, acusado de corrupção e nepotismo, Mahinda Rajapaksa deixou a Presidência do Sri Lanka. O novo mandatário do país, incapaz de honrar as dívidas do antecessor, solicitou uma audiência em Pequim. Após meses de negociações intensas e sob forte pressão política, o governo do Sri Lanka assinou um contrato de arrendamento válido por noventa e nove anos, mediante o qual o porto de Hambantota e mais de 5 mil hectares à sua volta foram transferidos ao controle chinês.

Xi Jinping em sua base naval novinha em folha.

Foi assim que, no curto intervalo de uma década, sem necessidade de recorrer às armas ou a outros artifícios excessivamente duros, a China ganhou uma base naval situada a poucos quilômetros de distância da Índia – sua grande rival na Ásia –, além de um enclave estratégico numa das rotas comerciais e militares mais críticas do mundo. Nada mau para quem só alegava inocentes interesses comerciais.

Imperialismo: Fase Superior do Comunismo

Atualização necessária.

A história do atentado à soberania nacional ocorrida no Sri Lanka, envolvendo, de um lado, um governo frouxo e corrupto e, de outro, o imperialismo chinês, está longe de ser um caso isolado na história recente. Uma rápida incursão na imprensa estrangeira revelará escândalos semelhantes ocorrendo em países tão distantes como Bangladesh, Etiópia e Paquistão.

Daí os analistas terem cunhado um termo para designar a tática chinesa: é a chamada “debt-trap diplomacy” (“diplomacia da armadilha pela dívida”, ou, diríamos de modo chão, “de endividar para reinar”).

A tática é simples: sob o disfarce de livres trocas comerciais entre nações amigas, mira-se em ativos considerados estratégicos para a futura Pax Sinica, como petróleo, instalações logísticas e recursos naturais. Em seguida, negociações políticas (com ou sem o azeite da corrupção) viabilizam empréstimos destinados a melhorar a infraestrutura local, obras que sempre agradam o eleitorado nativo. Assim que os empréstimos se transformam em dívidas virtualmente insolvíveis, porém, os chineses dobram a aposta, afirmando sua soberania sobre o ativo em disputa. Dead shot.

A tática também é chamada de “crony diplomacy” (“diplomacia do compadrio”), nome que enfatiza a primeira etapa do processo, quando os chineses ainda necessitam da cooperação de seus aliados terceiro-mundistas e, por isso, podem dar-se ao luxo de uma relação de igual para igual.

Seja qual for o nome, porém, o alerta já foi dado. Há poucos meses, num discurso que repercutiu fortemente na Ásia, o Primeiro-Ministro da Malásia, Mahathir Mohamad, advertiu com a autoridade e conhecimento de causa de um vizinho: o que o mundo está testemunhando hoje, atônito, é o despontar do neocolonialismo chinês.

Protesto na Malásia.

E o Brasil nessa jogada?

Nessas circunstâncias, episódios como a concessão de aeroportos brasileiros para empresas chinesas, a recente viagem dos deputados do PSL à China ou o anúncio da entrada da Huawei no mercado de smartphones deveriam causar inquietação ao povo brasileiro.

Deputados curtindo um rolê bancado pelo PCC.

Afinal, quem entre nós, além do Prof. Olavo de Carvalho e de um círculo mais ou menos restrito dos seus alunos, está consciente da ameaça representada pelo imperialismo chinês? Quem sequer conhece os principais teóricos e estrategistas do PCC? Quem está disposto a ir além do comercialismo raso, tão do agrado dos liberais, e investigar as entranhas da Iniciativa Cinturão e Rota?

Infelizmente, a resposta é muito pouco otimista.

A mim me parece que a influência chinesa se sustenta em três colunas:

  • o antiamericanismo de botequim prevalecente no meio militar;
  • a idolatria do livre comércio, com seu apelo irresistível aos globalistas de todos os matizes;
  • e o poder do lobby.

Enquanto perdurarem esses fatores, ou não encontrarem resistência adequada nas altas esferas, a oportunidade histórica trazida com a eleição de Bolsonaro de acabar com a dependência chinesa e a infame Cooperação Sul-Sul não será mais do que um fogo-fátuo.

E, seguindo o percurso inverso ao dos lusitanos – mas com ânimo predatório infinitamente mais voraz –, “as armas e os barões” do Extremo-Oriente passarão “inda além da Taprobana” para dilatarem, num Brasil virtualmente devolvido ao estatuto de colônia, a Fé Maoísta e o Império Xingling.

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