Cultura e alta cultura

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O que é a cultura? O que é a alta cultura?

Desde minha mocidade formei, por assim dizer, uma ideia horizontal da cultura e vertical da alta cultura. Considerei como cultura o vastíssimo conhecimento em variadas áreas que foi adquirido, aprimorado, acumulado e transmitido durante certo período por um povo ou conjunto de povos. Em outras palavras, vislumbrei a cultura como o ornato do espírito humano, que enriquece e valoriza os indivíduos e as nações.

Por alta cultura, o andar superior do pensamento humano. Primeiro a visita aos salões refinados da literatura e arte francesa, ao som do rico repertório musical alemão. Depois a passagem pela biblioteca para folhear as obras dos grandes historiadores. Por fim, a cômoda poltrona de leitura para captar algo do sutil voo dos filósofos, da riqueza experimental dos místicos e da sabedoria dos teólogos. Em casa aprendi que a pátria universal da cultura era a França.

O tempo passou e conheci Plinio Corrêa de Oliveira. Ele me fez completar a tríade: cultura, alta cultura, cultura católica, porquanto é uma visão arquitetônica que conduz a um ápice. A ele devo a subida ao terceiro céu onde circulam os nobres de espírito que respiram a atmosfera cultural da civilização católica. Passo agora a expor algumas considerações que Dr. Plinio teceu em 1954 sobre o primeiro desses degraus.

“O que é a cultura? A esta pergunta, têm sido dadas respostas bem diversas, inspiradas umas na filologia, outras em sistemas filosóficos ou sociais de toda sorte. Tal é o cipoal de contradições que se estabeleceu em torno deste vocábulo, e de outro conexo que é civilização, que congressos internacionais de sábios e professores se têm especialmente reunido para lhes definir o conteúdo. Como sói acontecer, de tanta discussão não nasceu a luz!

Entretanto, podemos considerar seriamente o assunto tomando a palavra “cultura” nos mil significados de que ela se reveste na linguagem de tantos povos, classes sociais e escolas de pensamento, e começando por mostrar que em todas estas acepções a cultura contém sempre um elemento basilar invariável: o aprimoramento do espírito humano. No âmago da noção de aprimoramento, está a idéia de que todo homem tem em seu espírito qualidades susceptíveis de desenvolvimento, e defeitos passíveis de repressão. O aprimoramento tem, pois, dois aspectos: um, positivo, em que significa crescimento do que é bom, e outro negativo, ou seja, a poda do que é mau.

Muitos modos de pensar e de sentir correntes a respeito da cultura se explicam à vista deste princípio. Assim, não temos dúvida em reconhecer o caráter de instituição cultural a uma universidade, a uma escola de música ou teatro, ou mesmo a uma sociedade destinada ao fomento do jogo de xadrez ou da filatelia. É que estas entidades ou grupos sociais têm como objetivo direto o aprimoramento do espírito, ou pelo menos visam fins que de si aprimoram o espírito.

Entretanto, podemos conceber uma universidade, ou outra instituição cultural, que trabalhe virtualmente contra a cultura, o que se dá quando, pelo efeito de erros de qualquer ordem, sua ação deforma os espíritos. Poder-se-ia, por exemplo, fazer esta afirmação a propósito de certas escolas que, levadas de um entusiasmo exagerado pela técnica, incutem em seus alunos o desprezo por tudo quanto é filosófico, ou artístico. Um espírito que adora a mecânica como valor supremo e faz dela o único firmamento da alma, nega toda certeza que não tenha a evidência das experiências de laboratório e rejeita desdenhosamente todo o belo, é sem dúvida um espírito deformado.

Deformado seria o espírito que, movido por um apetite filosófico imoderado, negasse qualquer valor à musica, à arte, à poesia, ou mesmo a atividades mais modestas mas que também exigem inteligência e cultura, como a mecânica. E de universidades que plasmassem segundo alguma destas orientações falsas os seus alunos, diríamos que exercem uma ação anticultural ou propagam uma falsa cultura.

Na acepção corrente, reconhece-se que jogar esgrima é um exercício de certo valor cultural, porque supõe qualidades de destreza física, vivacidade de alma, elegância. Mas o senso comum se mostra infenso a reconhecer caráter cultural ao boxe, que tem em si algo de aviltante para o espírito, pelo fato de ter por alvo de golpes maciços e brutais a face do homem. Em todas estas acepções, e em tantas outras ainda, a linguagem corrente inclui na noção de cultura a ideia de aprimoramento da alma.”

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