Cultura de massas: como a relação entre notícia e público acaba em pizza

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Quando se consegue recuperar o fôlego e um pouco a distância psíquica após se aventurar nos portais de notícias, percebemos que ficamos com uma sensação de ter estado afundados em uma realidade paralela, muito distinta da voz de fundo de nossos pais falando na cozinha, do cachorro latindo na rua e da chuva caindo copiosamente sobre o telhado sem que o tivéssemos percebido.

Nesta imersão na web parece que entramos em um desses estranhos estados alpha de consciência. Recentemente, depois de um regresso da “matrix” e de ter recobrado meu juízo, resolvi fazer algumas reflexões sobre minha experiência, bem como sobre a situação atual do grande público e de sua relação com as notícias informativas. Tais reflexões me levaram a conclusões que passo agora a compartilhar.

Indo direto ao ponto, nesta relação entre o público e o consumo de informação, a impressão é de que o interesse desta audiência e as notícias é, via de regra, efêmero e epidérmico. O relacionamento se dá muito mais para satisfazer a sede de novidades, do que por um genuíno desejo de se tornar informado no melhor sentido da palavra, que é: conhecer a verdade dos fatos para se posicionar frente a eles segundo sua cadeia de valores, princípios, mentalidade e visão de mundo. O público atual busca as notícias como forma de entretenimento, de excitar sua imaginação e provocar impulsos nos seus sentidos, que produzam emoções próximas, por exemplo, das que se experimenta quando se vai ao cinema ou a um parque de diversões.

Para satisfazer tal apetite por novidades e novas sensações, os portais jornalísticos precisam produzir uma quantidade monumental de informações. Essa produção é facilitada pela tecnologia de informação que disponibiliza, em segundos, uma pletora de novas informações e estímulos que compõe atualmente o vasto horizonte midiático que conhecemos. É um mar de notícias, é verdade, mas um mar que quando se imerge nele, percebe-se que quase não tem profundidade nenhuma.

Por outro lado, a competição entre os vários veículos de informação para obter a atenção do público, em vez de gerar, como seria natural, mais qualidade nas informações como diferencial para vencer a disputa, age ao contrário. Se esforça por produzir ainda mais notícias que apelam para as emoções e para o ludismo, e não para a razão e para um approach equilibrado e abalizado dos fatos. No lugar disso apresenta cada vez mais novidades, notícias sensacionais e emoções efêmeras.

Além do conteúdo não primar pela qualidade, a mídia, por meio das tecnologias de informação e do mundo de possibilidades que estas oferecem, transforma o modo de acessar e receber a informação, tornando-o cada vez mais instintivo e condicionado, quase autômato. É então um universo de pop-ups, hiperlinks, dentre outras técnicas e artifícios, que aparecem na tela e que são utilizados para captar a atenção do leitor e gerar a esperada interação com o portal.

É importante notar que, neste caso, o interesse prévio e a possibilidade de deliberação, portanto, a liberdade, ficam diminuídos, tolhidos. Isto toca em maior ou menor grau no problema da manipulação sobre o leitor, que é a priori, o que a mídia, sobretudo a informativa, deveria ter cuidado e evitar.

Vemos que o modelo atual de apresentação de notícias tende a levar o público a desenvolver mais uma “afetividade pública” do que uma “opinião pública” propriamente dita. Com este consumo somente epidérmico, a reflexão, o pensamento e a consequente formação de um juízo ficam prejudicadas pelo volume, nível dos conteúdos, a disposição e as técnicas utilizadas para a atração dos leitores.

E mais uma vez a cultura de massas acaba em pizza.

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