Convulsões na esfera russa abalam a estabilidade de Putin

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People argue with police during a rally after the Belarusian presidential election in Minsk, Belarus, late Sunday, Aug. 9, 2020. Police and protesters clashed in Belarus' capital and the major city of Brest on Sunday after the presidential election in which the authoritarian leader who has ruled for a quarter-century sought a sixth term in office. (AP Photo)

Artigo escrito por Luis Dufaur, publicado originalmente em Flagelo Russo

Uma após a outra vão se acendendo labaredas vermelhas no imenso mapa da Federação Russa, escreveu desde Paris, a jornalista especializada Luisa Corradini para “La Nación”. A maior fonte de preocupações para Vladimir Putin provém de seu colossal jardim interior: protestos populares e repressão na Bielorrússia, confrontos territoriais sangrentos entre a Armênia e o Azerbaijão, fraude eleitoral e violenta reação dos cidadãos no Quirguistão.

Sem falar das guerras não resolvidas na Ucrânia, na Geórgia e na Moldávia.

Não há ligações diretas entre uma e outra crise, mas todas essas erupções surgem embaixo dos pés do mesmo omniarca empenhado em representar a ficção de um chefe todo-poderoso que tem consigo a aprovação unânime das etnias nas quais Moscou tem interesses diretos, acordos de defesa, bases militares e um compromisso político de primeira grandeza.

A erisipela de revoltas e atritos é abafada para o Ocidente não saber bem, porque se conhecida pode se questionar a própria estabilidade do regime russo. “O quintal de Putin está pegando fogo. É difícil imaginar como ele vai lidar com toda essa turbulência ao mesmo tempo”, disse um diplomata europeu de Moscou, citado pela jornalista.

As manifestações de protesto popular em Minsk, capital da Bielorrússia, adquiriram uma dimensão histórica.

O ditador Alexander Lukashenko, no poder por 26 anos, provocou revolta popular pacífica anunciando sua vitória esmagadora nas eleições presidenciais de 9 de agosto de 2020.

Ninguém acreditou, grandes colunas cidadãs saíram às ruas e o ditador, um filhote de Putin, mandou reprimi-las com prisões em massa e torturas. Para o Kremlin, Lukashenko – dito “o último ditador da Europa”, continuador direto da KGB e da URSS – é um aliado essencial.

A Bielorrússia, tem 9,5 milhões de habitantes, faz fronteira com a Rússia, Letônia, Lituânia, Ucrânia e Polônia, servindo de “estado-tampão” contra a Aliança Atlântica (OTAN) e a União Europeia (UE), que Putin tem em conta de rivais estratégicos.

“A derrubada de um líder autoritário como Lukashenko por um movimento democrático popular seria um exemplo perigoso que os russos poderiam seguir”, disse Livia Paggi, da consultoria de risco político GPW.

E isto tira o sono do dono do Kremlin.

A atual fase do conflito bélico entre o Azerbaijão e a Armênia começou em 27 de setembro sobre o território de Nagorno-Karabakh, província separatista de 149.000 habitantes atribuída ao Azerbaijão muçulmano e controlada por armênios cristãos.

Essas longínquas terras são importantíssimas e seu domínio levou à Alemanha de Hitler e à Rússia de Stálin a sacrificar mais de um milhão de homens em Stalingrado, a mais sangrenta batalha na história das guerras. O Azerbaijão é grande produtor de petróleo e há tempos trabalha num imenso oleoduto que transportará sua produção à Europa pelo Sul, desviando imensos lucros da Rússia.

Os confrontos sangrentos duram 30 anos e causaram mais de 30.000 mortes. Suspeita-se que Moscou venda armas aos dois para alimentar as tensões, debilita-los e preservar a influência herdada da URSS. A Turquia ingressou na briga como ator islâmico fundamentalista agindo pelo Azerbaijão. Ela é inimiga histórica da Rússia e “põe em risco a hegemonia de Moscou no Cáucaso”, diz Paggi.

O presidente turco Recep Tayyip Erdogan sonha reconstituir o Império Otomano e envia armas, aviões e centenas de mercenários sírios a Baku (capital do Azerbaijão), desafiando a Putin para ver quem fica árbitro da região. No longínquo interior da ex-URSS, o Quirguistão, país pobre e montanhoso de seis milhões de habitantes, embora o mais liberal da Ásia Central é o mais instável gerando um problema todo local.

Já houve duas revoluções, em 2005 e 2010, que depuseram dois presidentes envolvidos num quadro sistemático de autoritarismo, fraude eleitoral e pogroms contra a minoria uzbeque no sul do país.

Esse tipo de problemas que misturam vinganças históricas, étnicas e culturais, ambições descontroladas de chefes autoritários, são inevitáveis num contexto pagão ainda empestado pelo espírito comunista. A antiga União Soviética afogou as dissensões e disputas em banhos de sangue, como aliás, fez o próprio Putin com a Chechênia.

Mas, muitos casos ao mesmo tempo podem ser incontroláveis, e Putin precisa fazer malabarismos. A história do que acontece no Quirguistão é mais confusa e violenta do que a das mais desordenadas repúblicas latino-americanas. Presidentes, ex-presidentes, amigos, aliados, ex-aliados se interdegladiam sem cessar e com crueldade.

O maior perigo é que o exemplo de caos se contagie à “democracia controlada” que Putin instalou na Rússia e é imitada por muitos países pós-soviéticos. Todos os líderes da região acham que concedendo liberdades os cidadãos exigirão cada vez mais. E então países que não têm quase relação comunicarão seu fogo um ao outro.

“A situação no Quirguistão servirá a Lukashenko para endurecer sua política. Mas incitará os manifestantes a persistir”, numa espiral de caos, explica Camilla Ogunbiyi, analista da consultoria de risco Verisk Maplecroft.

Moscou sustenta bases na Armênia, Bielorrússia e Quirguistão; países que também são parceiros de Moscou na União Econômica da Eurásia (o outro é o Cazaquistão), uma aliança política, econômica e comercial liderada pela Rússia.

Todos eles – além do Tadjiquistão – pertencem à Organização do Tratado de Segurança Coletiva, órgão semelhante à OTAN que inclui um pacto de defesa mútua. A qual deles ajudar sem ferir suscetibilidades? Se Putin auxilia um corre o risco de provocar revoltas populares nos outros, a ainda ganhar mais sanções ocidentais.

Mas se os entrega à sua própria sorte, arrisca desencadear um contagioso incêndio regional que revelaria ao mundo a imagem da sua própria fraqueza. “O Kremlin permitirá que os diferentes conflitos sigam seu curso, desde que não coloquem em risco a aliança geopolítica que os une”, avalia Livia Paggi.

Um alto nível de turbulência existe em todo o espaço pós-soviético e novos abalos sociais, culturais e econômicos regados com muito sangue podem explodir nos próximos meses. Entre eles, preocupa o que possa acontecer nas próximas eleições na Moldávia, Geórgia, Tadjjiquistão e Cazaquistão, conclui a jornalista.

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