Controle socialista do coronavírus

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Train attendants wear protective masks on their way to Beijing Railway Station in China on Feb. 1, 2020. The Chinese capital, like other cities far from the epidemic’s center, has imposed restrictions and shut down public spaces, straining the ties that bind society. (Giulia Marchi/The New York Times)
Train attendants wear protective masks on their way to Beijing Railway Station in China on Feb. 1, 2020. The Chinese capital, like other cities far from the epidemic’s center, has imposed restrictions and shut down public spaces, straining the ties that bind society. (Giulia Marchi/The New York Times/Divulgação)

Na crise do coronavírus a ditatorial máquina de controle socialista da população não parou de funcionar

Fonte: Artigo originalmente publicado em pesadelochines.blogspot.com

Na crise do coronavírus, agora denominado Covid-19, a ditatorial máquina de controle socialista da população não parou de funcionar. Pelo contrário, a epidemia lhe serviu de pretexto para ficar mais rija.

O jornal argentino “La Nación” cita o caso de um homem de Hangzhou que ao voltar para casa foi abordado pela polícia. Seu carro fora identificado perto de Wenzhou, onde havia um pequeno surto de coronavírus, mas muito longe do epicentro da epidemia.

A polícia lhe ordenou ficar recluso em casa por duas semanas. Aconteceu de ele ter saído dois dias antes do previsto, e acabou sendo identificado por uma câmara de reconhecimento facial nas cercanias da cidade.

Desse jeito, o coronavírus acabou por dar uma “justificação” ao regime para intensificar os métodos de controle social. Se um infectado com coronavírus pega um trem, o sistema de identificação facial pode fornecer a lista das pessoas que sentaram perto dele. Aplicações de celular avisam se o passageiro pegou um trem ou um avião com um portador do vírus, e mapas virtuais marcam os prédios onde moram pacientes infectados.

Os fornecedores de telefonia rastreiam silenciosamente os movimentos de seus clientes. A China Mobile transformou isso num argumento de propaganda junto aos habitantes de Pequim, ou seja, de que a empresa é capaz de mapear os lugares onde estiveram nos últimos 30 dias.

De pânico da doença, os cidadãos vêm aceitando mais essa intromissão na vida particular.

O epidemiólogo Li Lanjuan disse pela TV do governo que “agora é diferente” e que “temos de fazer pleno uso de todas as novas tecnologias para conter a infecção”.

A empresa de reconhecimento facial Megvii informou ao Ministério da Indústria que havia desenvolvido nova forma de localizar e identificar pessoas com febre, utilizando câmaras térmicas. Acrescentou que reconhece os indivíduos pelos dados do corpo e da face. A técnica estaria sendo testada num bairro de Pequim.

A empresa SenseTime, líder em inteligência artificial, garante identificar até pessoas com máscaras. Embora absurdamente invasivo, em caso extremo, e se aplicado com sabedoria, o sistema poderia ser útil. Mas sabedoria só existe em sociedades com alta moralidade.

Mas é precisamente o que falta, e de modo cruel, na China, onde grassa a ideologia comunista e a arbitrariedade ovante. Para o The New York Times International Weekly, embora o Partido Comunista chinês banca de poderoso e eficaz, o coronavírus pulverizou sua imagem.

Funcionários de hospitais imploram fornecimentos por toda China. Pacientes em Wuhan, epicentro do surto, choram em vídeos pedindo remédios. Residentes de Wuhan e de seu estado Hubei estão sendo expulsos de aviões, hotéis e aldeias.

Na crise estouraram divisões e apareceu uma China socialista praguejada de vulnerabilidades que nada consegue remediar. O governo ostenta uma capacidade vertiginosa para construir hospitais, visando prioritariamente o efeito propagandístico.

A velocidade despertou a desconfiança de especialistas internacionais em saúde pública. Mas para o regime a propaganda vale mais do que a realidade sanitária. Os residentes de Wuhan denunciam que as restrições ao trânsito dificultam a procura de ajuda médica e obstaculizam os esforços de prevenção.

Nas redes sociais vídeos mostram médicos sofrendo colapsos nervosos enquanto os doentes pedem desesperadamente ajuda. O chefe do maior hospital de Wuhan, no epicentro da epidemia, morreu atingido por ela.

E com a desordem estatal, os hospitais pedem doações porque não recebem recursos governamentais. Os líderes nacionais parecem desligados da realidade. O Jornal do Povo, porta-voz do Partido Comunista, exalta a liderança do Partido sem informar sobre o surto da doença.

Na verdade, “não há ‘povo’ no Jornal do Povo, escreveu numa mensagem um cidadão cujo nome não pode ser mencionado para não sofrer represálias.

Na China a história é frequentemente reescrita de acordo com os interesses do Partido, e o passado pode até mesmo ser suprimido.

O surgimento do SARS em 2002, análogo ao atual, e que matou centenas de pessoas, foi silenciado pela história oficial. Por sua vez a polícia multa ou prende dúzias de pessoas acusadas de difundir “rumores”, ao alertarem para casos de coronavírus.

A propaganda porém só exalta os ditadores e uma visita do primeiro ministro Li Keqiang a Wuhan foi anunciada com sinal certo de que “o Estado é o único salvador”.

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