Confinamento em casa: a onda de depressão que se aproxima não tem precedentes na sua magnitude

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Foto: Pexels de Pixabay
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Publicado por  Brasil Livre  – 5 de janeiro de 2021

20% da população francesa têm pensamentos suicidas

Por Damien Le Guay

O ministro da Saúde francês avisa: está chegando “uma terceira onda” e tudo deve ser feito para evitá-la. Mas há uma terceira onda ligada à “saúde mental dos franceses” que se deteriora em alta velocidade. Os números são de fato alarmantes. Os psiquiatras dizem que estão diante de uma “onda depressiva” de uma magnitude sem precedentes.

Segundo uma pesquisa da saúde pública francesa, o índice de ansiedade dobrou devido ao confinamento. No final de março de 2020, passou  de 13,5% para 26,5%. Então, após o desconfinamento, a situação melhorou. Mas em novembro a taxa voltou a ser a de março de 2020. O número de deprimidos também dobrou, e março de 2020, passou de 9,7 para 19,9%. E depois, novamente, com o segundo confinamento, constata-se que 21% da população está com depressão – duas vezes mais do que no final de setembro.

Quanto ao consumo de antidepressivos (que já é alto na França), aumentou 20% durante o primeiro confinamento. E o mesmo se repetiu durante o segundo confinamento. Evidentemente isso atinge particularmente as populações mais afetadas pelas medidas de isolamento: os jovens, os que têm empregos precários, os que vivem em pequenas áreas ou trabalham em profissões de risco.

20% dos franceses pensam na possibilidade de cometer suicídio

Outra pesquisa muito recente dirigida pela fundação Jean Jaurès indica uma forte tendência suicida, o que confirma a relação direta entre crise e suicídio. De acordo com este estudo, 20% dos franceses têm pensamentos suicidas. E, como aponta o estudo, o fato acontece geralmente após as crises, e não durante as mesmas.

Outra lição do estudo: a “violência doméstica”, sobre a qual o governo e a mídia não cessam de informar, atinge apenas 1% dos franceses. Os óculos ideológicos focalizam o lugar certo. E como sempre, a prevenção do suicídio é o parente pobre das políticas públicas de saúde. A cada ano, 9.000 pessoas cometem suicídio na França, enquanto 198 pessoas (número oficial) morreram em 2019 devido à violência doméstica.

O que o ministro propõe diante desses estados depressivos que afetam um em cada cinco franceses? Uma flexibilização dessas medidas restritivas da liberdade e da vida social, pelo menos para aqueles que estão à beira da angústia e podem mesmo cometer suicídio? Não. Uma vasta campanha publicitária, tão importante quanto a que foi implementada para combater a “violência doméstica”? Não. Um grande debate sobre as unidades hospitalares psiquiátricas cronicamente carentes de recursos? Não. Um ressarcimento para os gastos com consultas psicológicas? Não. Então, o quê?

Com certeza, diz ele, “não é nada bom você sentir dor”, mas apenas uma solução é oferecida: mais um número telefônico para uma ligação gratuita de emergência, além de todos os outros telefones que já existem. Isto é fazer pouco caso de milhões de pessoas traumatizadas pela Covid que sobrevivem como podem no ambiente nocivo do isolamento forçado, com seu sentimento de desconfiança generalizada e a limitação drástica da companhia de outras pessoas.

A isto acrescenta-se um clima psicológico de medo nunca experimentado antes. O medo de ficar doente, de ser responsável pelo contágio dos entes mais queridos. Um medo multiplicado pelo medo. E ainda mais forte em novembro, neste inverno depressivo, depois de todos esses meses de confinamento.

15 milhões de franceses estão com depressão. 13 milhões de franceses têm pensamentos suicidas.

Como sair disso, quando o futuro também é sombrio, e o trabalho a ser encontrado provavelmente já não estará mais disponível? E as telas estão cheias de informações assustadoras? E as autoridades irritadas continuam fazendo apelos à ordem? Nosso coração está continuamente sendo afetado por uma emissão de elétrons catódicos mortíferos. Então, como viver um pouco menos mal quando tudo é feito para que as pessoas morram lentamente?

No que diz respeito ao vírus Covid, “a vida não tem preço” e tudo deve ser feito para evitá-lo. Tudo. Mas as boas palavras bastam, quando se trata de combater o vírus das perturbações psíquicas. Desde o início deste longo inverno de confinamento, que durou dez meses (com uma pausa de verão no meio), alertas foram enviados e dados avisos. Para os enterros sumários (sem o cerimonial religioso) e desleixados, Boris Cyrulnik previu, logo no início, inúmeras pequenas catástrofes antropológicas futuras.

Especialistas alertaram. Para a infantilização dos idosos, foi imposta a suspensão das visitas e os riscos de uma tristeza mortal. A psicóloga clínica Marie de Hennezel se insurgiu. Os psiquiatras fizeram soar o alarme. Funcionários das unidades psiquiátricas disseram que estavam sobrecarregados. Os indicadores estão no vermelho. 15 milhões de franceses estão com depressão. 13 milhões de franceses têm pensamentos suicidas.

Mas, por que esse ” tudo vai muito bem, Madame la Marquise”? Obviamente, a lógica administrativa tem dificuldade em considerar “feridas invisíveis”. Não viu, não cuidou. Acrescentemos que não há psiquiatras nas instâncias de decisão – conselho de defesa ou conselho científico. A lógica médica cura os corpos, mas negligencia as almas. Contamos o número de respiradores, enquanto os asfixiados psíquicos devem sofrer em silêncio.

Olivier Rey fala, com razão, de uma nova idolatria: a da vida nua despida do sagrado

E acima de tudo, para nossos líderes oniscientes, esses “humores” depressivos não podem ser os efeitos dos remédios que tanto se orgulham de ter administrado ao país. Dizer, como diz o ministro, que essas pessoas estão sofrendo “com o peso da solidão”, é um enorme menosprezo em relação aos que estão de coração sufocados, esses prisioneiros interiores que vivem com tempestades internas. Podemos notar que o cuidado se reduz à parte corporal. Olivier Rey fala, com razão, de uma nova idolatria: a da vida nua. Compreendemos melhor por que as pessoas frágeis e nuas são ainda mais frias hoje.

Fonte: lefigaro.fr

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