Cardeal Muller: Os EUA agora lideram a campanha de descristianização da cultura ocidental

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Cardeal Muller

Biden colocou os EUA na vanguarda da campanha mais sutil e brutal para descristianizar a cultura ocidental

O cardeal Gerhard Ludwig Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, concedeu entrevista exclusiva para a jornalista Petra Lorleberg do site Kath.net.  O conhecido vaticanólogo italiano Marco Tosatti reproduziu-a. Vários temas nela foram abordados, com destaque para a questão da controvertida catolicidade do novo presidente norte-americano, Joe Biden.

O cardeal alemão afirma que “Quem relativiza o claro compromisso com a santidade de toda vida humana com base em preferências políticas, com jogos táticos e véus sofistas, se opõe abertamente à fé católica”. Continua o cardeal: “O Vaticano II e todos os papas até Francisco consideraram a morte deliberada de uma criança antes ou depois do nascimento como a mais grave violação dos mandamentos de Deus”. E conclui: “Agora os EUA, com seu poder político, midiático e econômico concentrado, estão na vanguarda da campanha mais sutil e brutal pela descristianização da cultura ocidental dos últimos 100 anos.”

1. Senhor Cardeal, a Conferência Episcopal Americana (USCCB) expressou fortes críticas à política abortista de Joe Biden. Por outro lado, alguns bispos americanos classificaram essas críticas como imprudentes. O cardeal Blase Cupich, de Chicago, disse no Twitter que foi “uma declaração precipitada”. As críticas da USCCB são justificadas ou os bispos estão exagerando?

Cardeal Müller : Um bispo católico distingue-se dos políticos e ideólogos do poder pela obediência à palavra revelada de Deus. Ele seria um falso apóstolo se relativizasse a lei moral natural por causa de sua preferência política ou por preferência por este ou aquele partido. Porque cada pessoa reconhece essas exigências morais na sua consciência, com base na sua razão. Quando os governantes políticos e religiosos de seu tempo quiseram proibir os Apóstolos de proclamar os ensinamentos de Cristo sob ameaça de castigo, estes responderam: “É preciso obedecer a Deus antes que aos homens” (Atos 5:29).

Quem relativiza o claro compromisso com a santidade de toda vida humana com base em preferências políticas, com jogos táticos e véus sofísticos, opõe-se abertamente à fé católica. O Vaticano II e todos os papas até Francisco descreveram o assassinato deliberado de uma criança antes ou depois do nascimento como a mais grave violação dos mandamentos de Deus.

2. O presidente da USCCB, o arcebispo Gomez, declarou claramente ao presidente Joe Biden: “Como ensina o Papa Francisco, não podemos ficar em silêncio quando quase um milhão de vidas em nosso país são descartadas pelo aborto.” O que a Igreja ensina sobre o aborto?

“Deus, o Senhor da vida, confiou de fato ao homem a elevada tarefa de preservar a vida. A vida, portanto, deve ser protegida com o maior cuidado desde o momento da concepção. Aborto e assassinato de crianças são crimes abomináveis” (Vaticano II, Gaudium et Spes, 51).

3. O presidente Joe Biden se apresentou – não apenas no dia de sua posse – como um católico devoto e praticante. Como isso é possível, tendo em conta a sua longa série de declarações “pró-escolha” e sua declaração oficial no 38º aniversário da decisão sobre o aborto Roe v. Wade: “Nos últimos quatro anos o direito ao aborto tem sido extremamente atacado”? E também o anúncio de que o governo voltará a dar apoio massivo ao aborto, nos EUA e no mundo, inclusive financeiramente?

Até nos mais altos cargos do Vaticano existem bons católicos que, sob efeito de um antitrumpismo cego, aceitam ou minimizam tudo o que está sendo lançado contra os cristãos e todas as pessoas de boa vontade nos Estados Unidos.

Agora, com seu poder político, midiático e econômico concentrado, os Estados Unidos estão na vanguarda da campanha mais sutil e brutal para descristianizar a cultura ocidental dos últimos 100 anos. Eles minimizam as vidas de milhões de crianças – que serão vítimas da campanha de aborto organizada globalmente sob o eufemismo dos “direitos de saúde reprodutiva” – apontando para as falhas de caráter de Trump.

Estou convencido de que a ética individual e social tem precedência sobre a política. O limite é ultrapassado onde a fé e a moralidade são contrabalançadas com o cálculo político. Não posso apoiar um político abortista por que ele constrói moradias sociais, e então, por causa desse bem relativo, eu teria de suportar o mal absoluto.

4. Há bispos nos Estados Unidos que falaram publicamente que Biden não está em plena comunhão com a Igreja Católica por causa de suas declarações públicas e ações relacionadas ao aborto. Por exemplo, o Arcebispo de Denver, Samuel J. Aquila, e o antigo Arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput. Este defende que Biden não deve receber a comunhão neste momento. Em sentido contrário, o cardeal Wilton D. Gregory, arcebispo de Washington DC, disse que Biden continuará com o costume de receber a comunhão. O que pensa disto?

Tem surgido, mesmo entre os católicos, a opinião absurda de que a fé é um assunto privado, e que na vida pública se pode permitir, aprovar e promover algo que é intrinsecamente mau.

Na ação prática concreta, os cristãos num parlamento ou governo nem sempre têm sucesso em fazer cumprir a lei moral natural em todos os pontos. Mas nunca devem participar ativa ou passivamente do mal. Pelo menos devem protestar contra ele– e tanto quanto possam – resistir-lhe, mesmo que sejam discriminados por isso.

Qualquer pessoa que como cristão se declare contra a corrente dominante da propaganda LGBT, do aborto, do uso legalizado de drogas, da dissolução da sexualidade masculina ou feminina, acaba sendo chamada “de direita” ou mesmo “nazi”, embora tenham sido precisamente os nacional-socialistas – com a sua ideologia biológico-socialista darwinista – que se colocaram na mais aberta contradição com a imagem cristã do homem.

Espíritos que denegrem os outros com as comparações nazistas, mas ao mesmo tempo ficam indignados com elas, são mais propensos à reunião com aqueles que se rebelam contra o Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança, como homem e mulher.

5. Os bispos americanos podem confiar basicamente no Papa Francisco para apoiar totalmente seu compromisso pró-vida e, no limite, podem discordar dele sobre a questão da sensibilidade ao lidar com um presidente em exercício?

Ao Santo Padre nunca faltaram as palavras mais claras contra o aborto como homicídio premeditado e, por isso, foi duramente insultado por aqueles que noutra circunstância o invocavam com tanta alegria e se opunham ao anterior Papa Bento XVI, não consigo destacar isto tanto quanto gostaria. 

6. Os católicos americanos podem e devem, em vista das posições pró-aborto do novo presidente, simplesmente aceitar seus apelos por “unidade” e cura das feridas?

Reconciliação é o que Deus nos deu por meio de Jesus Cristo. Especialmente para os cristãos que estão na política, isso também deve ser uma orientação para seu falar e agir. Mas uma divisão ideológica na sociedade não é superada por um lado empurrando o outro para fora, criminalizando-o e destruindo-o, de modo que no final todas as instituições, desde a mídia às multinacionais, são dominadas apenas pelos representantes da corrente capitalista ou da socialista dominante.

Nos EUA, como agora acontece na Espanha, não há dúvida de que as escolas católicas, hospitais e outras instituições sem fins lucrativos e com financiamento público serão forçadas a um comportamento imoral ou fechadas se não o aceitarem.

Mesmo a pessoa mais ingênua tem de perceber se a conversa sobre reconciliação na sociedade tinha um propósito sério ou era apenas um estratagema de propaganda. Especialmente aqueles que falam tão alto sobre o assunto devem questionar-se criticamente sobre a sua contribuição para a divisão. O lema “Se você não quer ser meu irmão, vou quebrar sua cabeça” não é o caminho certo para se alcançar a reconciliação e o respeito mútuo.

7. Enquanto nos EUA a participação absolutamente numerosa de bispos católicos, por exemplo, no maior evento pró-vida do mundo, a Marcha pela Vida, é quase um hábito, na Alemanha os poucos bispos corajosos que vão à Marcha pela Vida podem ser contados em uma mão.

Não é minha função julgar o comportamento de cada bispo. Sempre fiquei impressionado com Clemens August von Galen, que foi consagrado bispo de Münster em 18 de outubro de 1933. Seu brasão era: Nec laudibus, nec timore (nem por louvor nem por temor). Não devemos ser movidos por elogios ou medo das pessoas.

8. Na Polônia, por outro lado, os bispos são notavelmente pró-vida. Aprecia seus esforços?

Os poloneses, mais do que qualquer outro povo europeu, durante 200 anos sofreram e lutaram pela democracia constitucional e a fé católica. No entanto, circulam preconceitos cruéis contra esse país. Mesmo nos círculos eclesiásticos esses chavões e estereótipos são adotados sem qualquer crítica.

O empenho dos bispos, padres e leigos polacos é atribuído a um sentimento básico tradicionalista de uma nação que, depois da ditadura nacional-socialista e comunista e do domínio estrangeiro, ainda não está suficientemente maduro para a democracia.

Da Alemanha e da Áustria, de todos os lugares, vêm ofertas de lições de democracia e de como lidar com uma sociedade secularizada. Deveríamos mostrar mais solidariedade com os nossos irmãos e irmãs católicos da Polônia. Poderíamos aprender coisas importantes uns com os outros e, juntos, fazer o bem para a Igreja Católica no mundo de hoje.

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