Cada tempo tem seu mal

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Mais de cinco séculos de existência foram suficientes para que o Império Romano do Ocidente se consolidasse no imaginário popular até os dias de hoje. Contudo, tal fama se deve não apenas às glórias desse tempo, mas também às suas barbáries, como o infame incêndio que atingiu a cidade de Roma no ano de 64 d.C. O fato, porém, que torna trágico esse episódio não é a fúria com que as chamas consumiram a Cidade Eterna, mas sim a causa delas. Isso se dá, pois, segundo a versão mais aceita, os súditos de Nero iniciaram o fogo na noite anterior a mando do próprio imperador, que com isso desejava incriminar os cristãos, contrários ao culto a césar.

Por mais que esse fato tenha garantido (tragicamente) algumas páginas dos livros de história à civilização romana, ele certamente poderia ter ocorrido em tempo e lugar diversos. Exemplo disso é o julgamento da ADI 5581, agendado para o próximo dia 24 e que, por tratar da liberação do aborto nos casos em que há a possibilidade de a criança nascer com microcefalia, apresenta-se com contornos similares aos da catástrofe itálica.

Tal semelhança se dá, pois, da mesma forma que os asseclas de Nero atuaram furtivamente em meio à escuridão, os ministros do STF legislam sorrateiramente em meio ao medo e à preocupação causados pela atual pandemia. Além disso, as correspondências entre um e outro não se limitam ao modo de operação, mas também à finalidade. Assim como Nero agiu em prejuízo dos cristãos daquela época, os ministros do Supremo, ao pautarem uma decisão tão importante em um momento tão inoportuno, prejudicam não apenas católicos e evangélicos, mas todos aqueles que defendem os direitos do nascituro. Ou seja, que poderão fazer os partidários da vida se foram chamados para um confronto em meio a um cenário hostil e já marcado por um sem-número de outras preocupações? Logicamente se virão em um estado de surpresa e de impotência, igual àquele experimentado pelos cidadãos que acordaram com sua cidade transformada em ruínas.

Haja vista esse preocupante paralelo traçado entre eventos aparentemente tão distantes, a atenção e a atuação dos opositores do aborto se fazem imprescindíveis nesse momento. E esse é o único modo de impedir que o sucesso da empreitada do soberano de Roma seja reproduzido nos planos daqueles que se arrogam soberanos do Brasil.

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