Aristóteles e o hábito cultural da refeição em comum

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O senso de comunidade e sociabilidade se manifestam por meio de hábitos alimentares que exprimem uma cultura

Paul Krause

Aristóteles identificou os hábitos alimentares do homem como uma das pedras angulares da civilização, uma das duas atividades que realçam a excelência natural do homem (ou sua barbárie). A importância da alimentação para a condição humana deve ser evidente para todos.

De que maneira a religião, os filósofos antigos e o modo de vida tradicional consideram a refeição?

Comer, tradicionalmente, tem sido uma experiência social, ritual e comunitária. No jantar nos ambientes religiosos como na refeição em família, o senso de comunidade e sociabilidade se manifestam por meio de hábitos alimentares que exprimem uma cultura. Na refeição comunitária, as pessoas constituem uma unidade.

Da coesão à atomização social

O caos das vidas egocêntricas se reflete no caos e na desarmonia que nos cerca.

Há cinquenta anos, seria impensável não ter um horário fixo para as refeições em família. Hoje em dia, é comum as famílias terem esquecido a importância da refeição familiar, pois cada membro come no seu próprio horário de acordo com o bramido do seu próprio apetite. Isto reflete a atomização crescente, ainda que haja a ilusão de coesão e unidade.

A prevalência de refeições em família é difícil de medir. Pouco mais de 50% das famílias afirmam fazer refeições em família cinco dias por semana, o que é um triste reflexo dos tempos em que vivemos. Desses 50%, quantas dessas refeições são quentes, nas quais as pessoas falam com calma?

O hábito de comer rápido

Se a ênfase está em comer rápido para voltar à vida “ocupada” e individualista, mesmo que todos estejam presentes, mas não interligados, isso pode ser considerado uma verdadeira refeição em família no sentido tradicional?

Quanta gente come rapidamente, preocupada com seus celulares ou apenas querendo passar logo para a próxima atividade que as espera?

Um evento social tem algo de íntimo e lento, duas coisas das quais a sociedade moderna quer fugir.

A palavra sociedade evoca a ideia de intimidade. Ela vem da palavra latina socius, que significa amigo. Um amigo é alguém que você conhece, alguém com quem você passa o tempo, alguém que tem um papel íntimo em sua vida.

Para Santo Agostinho, a amizade era uma das necessidades da vida temporal, e que se baseava na confiança entre as partes. Trair essa confiança era um dos mais abomináveis ​“pecados” que se podia cometer (daí que trair a confiança de amigos, benfeitores e familiares seja punido tão severamente no Inferno de Dante).

Em vez de dedicar tempo aos nossos amigos e familiares, desperdiçamos o nosso tempo conosco mesmos. É a chegada em casa após o trabalho e a procura imediata de uma refeição para satisfação do próprio apetite, em vez de fazer a refeição em comum.

A satisfação do desejo pessoal

Satisfazer o desejo pessoal sem se importar com os outros é uma personificação sutil, mas trágica do egoísmo. Porque, nesse momento, nada mais importa no mundo, a não ser o eu e os desejos do eu.

Aos modernos é dito que “tempo é dinheiro”. Uma hora passada numa refeição familiar é considerada hora perdida: poderia ter-se “curtido” jogos de vídeo, ou obtido nas redes sociais dezenas ou centenas de “likes” de pessoas sem rosto, que não conhecemos. Horas gastas no café da manhã, almoço ou jantar com amigos são consideradas horas perdidas.

Comer juntos, como um evento social, deve ser demorado, porque deve ser uma experiência íntima onde a amizade – a verdadeira amizade – é vivenciada, reacendida e o amor está no centro da mesa.

É, à sua maneira, um chamado ao sacrifício. O sacrifício do tempo de um pelo outro. Sacrifício de seu próprio prazer para passar mais tempo com outras pessoas.

Falta de gratidão

As orações tradicionalmente ditas antes e depois das refeições reconhecem o papel sacrifical envolvido na refeição social. Reconhecem o sacrifício que outros fizeram para preparar a comida, o seu presente aos demais.

O mínimo que se pode fazer para retribuir esse sentimento é expressar apreço a todos aqueles que trabalharam com amor para preparar o alimento que une as pessoas.

A ação de graças após a refeição também reconhece o outro, mesmo depois de a pessoa ter sido pessoalmente saciada pela comida e boa companhia.

Aristóteles estava certo ao dizer que os hábitos alimentares do homem eram uma das características de sua delicadeza. Civilização vem da palavra latina civitas, cidade, e a cidade é ordenada a algo maior que o eu individual.

A cultura nasce do que se aprecia

Todas as civilizações são ordenadas a algo. A cultura vem desta ordenação porque cultura, cultivo, significa cuidado e estima. O que as pessoas almejam é o que importa para elas, e o que lhes interessa é o que virão a apreciar. Seu trabalho é um reflexo do que realmente importa para elas.

Uma civilização ordenada para o eu e os desejos do eu é uma cultura vazia, niilista e destrutiva. Nela a pessoa trata os outros como instrumentos para os seus próprios fins egoístas. Utiliza em seu próprio benefício e prazer a alma e a subjetividade de outro ser humano.

Coloca o próprio eu no centro do universo, sem necessidade de se sacrificar pelos outros e, portanto, sem necessidade de amar os outros. Devido a isto, não há tempo a dar aos outros. Todo o tempo é para si próprio.

O cristianismo compreendeu a centralidade da refeição, do amor e do sacrifício contidos no simbolismo ordenador e vivificante da comida. Pois quem fez um sacrifício maior ao oferecer-se a si próprio como alimento para curar e trazer vida ao mundo do que Cristo?

O alimento – a Eucaristia – é o foco central da liturgia cristã. É íntimo. É pessoal. É sacrificial. Por outro lado, a refeição conduz à ordem. Atrai para a mesa o eu isolado, díspar, caótico, alienado; para a mesa que traz ordem, amor e vida ao mundo.

 Comida e cultura

A refeição cristã é também de natureza filial. O cristão pertence a uma família temporal, mas também à família eterna e divina, que transcende o espaço e o tempo. Os cristãos reúnem-se como uma família na mesa do sacrifício e do amor, onde o desejo é verdadeiramente saciado; a ordem, a paz e o contentamento são também, em última análise, encontrados na mesa da ceia do Senhor.

O sacrifício amoroso de Cristo é o maior dom de si mesmo ao mundo, e a atração por este alimento redireciona o coração de si para os outros, para a ordem, a sociabilidade e o amor.

A própria sociedade moderna é uma paródia corrupta do que é a verdadeira sociedade, não há lugar para sacrifícios e sofrimento.

Essa fuga do sofrimento, que eventualmente leva à eliminação do sacrifício, é o que une os filósofos liberais, de Hobbes e Locke a Mill e Rawls.

Como tal, a sociedade moderna passará a refletir sobre o que se preocupa e aprecia. E o que a sociedade moderna se preocupa e se interessa é o eu isolado e atomizado, mutilado do mundo dos relacionamentos e da intimidade.

Se o amor exige sacrifício, e o sacrifício significa doação de si ao outro, a filosofia moderna procura destruir o amor, porque o sacrifício leva ao sofrimento e o sacrifício coloca o outro, em vez de si mesmo, no centro da vida.

Por isso o mundo moderno precisa rejeitar a Cristo; não tem lugar para ele como o Filho de Deus encarnado e sacrificado. (Onde Cristo permanece, ele é transformado em porta-voz do último Zeitgeist [“espírito da época”] liberal).

É também por isso que no mundo moderno é preciso fazer a refeição sozinho; não há espaço para os outros, não há espaço para os sacrifícios envolvidos na preparação e realização da refeição comunitária, e não há espaço para dar graças aos outros, porque isso suplantaria o ego da própria pessoa como o ápice principal daquilo que ela se preocupa e valoriza.

A ascensão da sociedade de consumo, que alimenta o apetite de egos desordenados, coincide com o fast food, produzido em massa e barato.

O triunfo de McDonalds não é o triunfo do capitalismo empresarial, mas o triunfo do indivíduo libertado, cuja única preocupação na vida é alimentar os seus próprios desejos. É o triunfo do liberalismo na sua verdadeira forma e expressão.

O declínio da família

À medida que o nosso mundo se torna despersonalizado, isolado e atomizado, nossos hábitos alimentares ‒ nossa cultura alimentar‒ refletem esta nova realidade: a perda da sociabilidade, a perda de relacionamento, o declínio da família.

A refeição chama à ordem, dá vida a quem dela participa, aproxima as pessoas em relações íntimas, coloca o outro, o agradecimento e a amizade, no centro do mundo.

A refeição familiar e a Eucaristia cristã continuam a ser a fonte de uma verdadeira transformação, o ápice da reorientação, da cultura de regresso aos valores permanentes e pedra basilar da civilização.

. Fonte: The Imaginative Conservative

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