Aos passadores de pano, com amor

0

A condenação da união ou convivência civilmente reconhecida de pessoas homossexuais é doutrina definitive tenenda (que se deve tomar como definitiva, irreformável)

As declarações de Francisco causaram um imenso reboliço em todo o mundo, obviamente com dois cenários bem contrastantes: os prevaricadores de todas as tonalidades regozijaram-se pela ruptura do papa argentino com toda a tradição católica, enquanto os católicos procuravam meios para expressar a sua sã indignação contra mais essa traição escandalosa.

No meio dos dois pólos, os conciliadores saracutiaram, parafraseando a ex-presidente Dilma, “daqui pra lá, de lá pra cá”, tentando encontrar meios de atribuir a confusão à malícia da mídia – como se Francisco não tivesse, mais uma vez, dito o que disse; como se Francisco não repetisse declarações ambíguas — para sermos muito benevolentes — sem se preocupar com repercussão (até a Sala de Imprensa desistiu de publicar esclarecimentos, como fazia no começo do pontificado); como se não tivesse Scalfari como jornalista predileto para ouvir suas confidências; como se sua corte — de Spadaro a Tucho não testemunhassem que Bergoglio adota, sim, a posição de ruptura com o magistério católico,  etc, etc, etc… 

Enfim, o zelo da defesa da honra pontifícia dos papistas dos últimos dias é tão, tão exclusivo, que não é compartilhado sequer pelo próprio Francisco.

Ora, em nenhum momento os órgãos de imprensa aliados de Bergolio tentaram desmentir que ele se tenha posicionado em favor da união civil de homossexuais em si mesma e dentro de parâmetros legais. O Padre Antonio Spadaro, jesuíta e diretor de Civiltà Cattolicadeu uma entrevista à TV2000, da Conferência Episcopal Italiana, em que confirma que “Papa Francisco fala de um direito à tutela legal de casais homossexuais”, ainda que diga, apenas em termos retóricos, que “sem de nenhum modo danificar a doutrina da Igreja”. Já Tucho Fernandez atesta: para o papa Francisco, união ou convivência civil dão na mesma. 

Mas, a verdadeira interpretação do “magistério” bergogliano seria aquela dada pelos malabaristas do Brasil?

Já um seu outro confrade jesuíta, o conhecidíssimo Padre James Martin, que não pode ser considerado propriamente suspeito de ortodoxia sexual , celebrava o acontecimento em seu twitter com palavras bastante coloridas: “o que torna os comentários do Papa Francisco em apoio às uniões civis do mesmo sexo hoje tão importantes? Primeiro, ele os diz como Papa, não como arcebispo de Buenos Aires. Em segundo lugar, ele está claramente apoiando, não simplesmente tolerando, as uniões civis. Terceiro, ele está dizendo isso para a câmera, não em particular. Histórico”.

Portanto, simplesmente não tem sentido interpretar restritivíssimamente as palavras de Francisco e afirmar que foram apenas em defesa de “pessoas homossexuais abandonadas pela família” e que não fazem nenhuma alusão à união civil de homossexuais, ou inclusive apelar para uma interpretação igualmente restritiva do termo espanhol “convivência”, como se este não pudesse ser interpretado como sinônimo exatamente de “união civil”. Estas tentativas, se não confirmadas diretamente por Francisco, num esclarecimento definitivo e cabal, com a reafirmação da doutrina católica, são histéricas, flagrantemente mentirosas. Tertium non datur!

Contudo, gostaríamos de refutar uma ideia com força: a de que estas declarações de Francisco sejam parte do magistério pontifício. Infelizmente, a papolatria reinante, como toda ideologia, é cheia de aporias, de contradições internas, e, se não for devidamente desmentida, pode dar lugar a uma série de dissensões que seriam altamente maléficas para a sobrevivência da doutrina católica.

Qual a diferença entre este pronunciamento espúrio de Francisco e o Documento da Congregação para a Doutrina da Fé, “Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais”? A declaração vergonhosa deste papa equivale em autoridade ao texto daquele documento ou, inclusive, a sobrepuja?

Precisamos ademais nos lembrar que o Documento da Congregação para a Doutrina da Fé que mencionamos foi aprovado Ex audientia Sanctissimi, ou seja, o Papa João Paulo II assumiu-o em seu magistério papal e, por isso, goza de autoridade pontifícia.

Entretanto, a fonte primária de sua autoridade não reside apenas no fato de que tenha sido emanado por um dicastério e aprovado pelo papa de então, mas, sobretudo, porque tanto o dicastério quanto o papa reafirmaram coerentemente a mesma doutrina sustentada pelas Sagradas Escrituras, pelos Santos Padres, pelos Doutores da Igreja e pelo Magistério ininterrupto, bem como pela reta razão (o que vale dizer, pela Lei Natural), de modo que a sua conclusão pela ilicitude da cooperação com projetos de lei que visam a aprovação da união civil de pessoas homossexuais é de uma lógica irretorquível, é simplesmente a verdade sobre a questão.

Em outras palavras, a condenação da união ou convivência civilmente reconhecida de pessoas homossexuais é doutrina definitive tenenda (que se deve tomar como definitiva, irreformável), e isto não porque um papa a disse, mas porque é intrinsecamente a verdade sobre o assunto, em absoluta consonância com a fé e a razão, tal como foi sempre entendida pela Igreja e pelos papas.

O próprio Padre Spadaro tentou não desautorizar Francisco e, ao mesmo tempo, tirar importância doutrinal do assunto. Ele disse, na mesma entrevista, que “há também um outro testemunho dentro do filme no qual se diz explicitamente que o Papa Francisco não pretende mudar a Doutrina, mas, ao mesmo tempo, o Papa Francisco é muito aberto às exigências reais da vida concreta das pessoas”, dizendo-o doutro modo, um é o plano doutrinal e outro é o plano prático (dialética muito usada pelos adeptos da ideologia rhaneriana).

É preciso que o digamos explicitamente, pois a maior desgraça a que nós, fieis, somos submetidos dia após dia desde que foi eleito o papa atual é essa instabilidade doutrinal absurda. A fé católica não pode depender de declarações irresponsáveis e impensadas de um pontífice.

Para os anestesiadores de plantão, fica a observação de que a sua colaboração formal com toda essa delinquência está sendo muito bem observada pelos fieis. As palavras de Francisco não são uma brincadeirinha… Elas respaldam toda a luta pela destruição da família natural e pela imposição do gayzismo e deslegitimam os fieis católicos que dão a sua vida pela defesa dos valores mais fundamentais da civilização cristã. Doravente, irão esfregar na cara dos fieis que o seu papa está contra eles e a favor do Movimento LGBT.

“Ah, mas foi a imprensa!” Em boca fechada não entra mosquito.

Fonte: fratresinunum.com

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor registre seu comentário
Por favor, digite seu nome aqui