A transformação religiosa das escolas francesas

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Foto: BERTRAND GUAY/AFP via Getty Images.

Depois da decapitação do professor Samuel Paty, ocorreram 800 “incidentes” islamistas em escolas francesas

por Giulio Meotti

A islamização na educação francesa está avançando a todo vapor. O Ministro da Educação da França, Jean Michel Blanquer revelou que depois da decapitação de Paty, ocorreram 800 “incidentes” islamistas em escolas francesas. Tornou-se impraticável fazer uma lista com dados precisos sobre estes incidentes. Eles ocorrem todos os dias na França.

“Diferentemente de você, coronel, e de tantos outros, Mila jamais irá se prostrar”, escreveu o pai da adolescente francesa ao diretor da escola que ela frequenta em uma carta publicada pela revista semanal Le Point. Em 18 de janeiro de 2020 Mila O., então com 16 anos, se manifestou de maneira ofensiva sobre o Islã durante sua transmissão ao vivo no Instagram.

“Durante a transmissão, um menino muçulmano a convidou para sair, mas ela recusou por ser gay. Ele respondeu acusando-a de racismo, chamando-a de ‘lésbica imunda’. No vídeo seguinte, transmitido imediatamente após ter sido insultada, Mila respondeu dizendo que ‘odeia religião'”.

Mila deu seguimento: “o Alcorão é uma religião de ódio, só há ódio nela. O Islã é uma m***a…” Desde então, ela recebeu cerca de 50 mil mensagens e cartas com ameaças de estupro, de cortar sua garganta, de torturá-la e de decapitá-la. Ela teve que mudar, sem parar, de uma escola para outra.

De novo Mila se viu sem escola. Em uma rede social, ela acidentalmente deu o nome de sua nova escola militar. De pronto a direção da instituição a expulsou por considerá-la uma ameaça em potencial à segurança dos alunos. “Devastado diante de tanta covardia”, o pai da Mila escreveu: “nem o exército tem condições de protegê-la e permitir que ela continue seus estudos, o que nos resta a fazer, nós, seus pais? Este comentário representa para nós um filme de terror”.

Nem mesmo o exército francês tem condições de protegê-la? “Ela tem 17 anos e agora vive como o staff da revista Charlie Hebdo, em um bunker, isso é insuportável!”, salientou Richard Malka, advogado de Mila.

Dias mais tarde, “Caroline L.”, professora da Faculdade de Direito da Universidade de Aix-Marseille, recebeu inúmeras ameaças de morte, com acusações de “islamofobia”. O promotor de Aix-en-Provence abriu uma investigação por “ofensas públicas por alguém pertencer a uma religião”. O “crime” dela? A professora havia explicado aos seus alunos:

“não há liberdade de consciência no Islã. Se o seu pai for muçulmano, você será para sempre muçulmano. É uma espécie de religião sexualmente transmissível. Um dos maiores problemas que temos com o Islã e, lamentavelmente, não é o único, é que o Islã não reconhece a liberdade de consciência. É aterrorizante, em toda sua plenitude”.

A escola de ensino médio Pierre Joël Bonté em Riom (Puy-de-Dôme) foi fechada em 11 de janeiro devido a “insultos e ameaças de morte” dirigidos aos professores. “Com o intuito de protegermos alunos e staff, decidimos fechar a escola devido a insultos e ameaças de morte”, esclareceu um porta-voz da escola. Poucas horas depois, Fatiha Boudjahlat, professora em Toulouse solicitou proteção policial após receber ameaças expressivas.

Em 2015 o Estado Islâmico divulgou um comunicado segundo o qual as escolas francesas devem ser atacadas e convocou seus seguidores a “matarem os professores“. De acordo com Gilles Kepel, especialista em Islã, “para os partidários do Islã político a escola se tornou uma cidadela que deve ser destruída”.

Um artigo no L’Express melancolicamente coloca o dedo na ferida, salientando que as escolas são objeto de violentas campanhas de islamistas mundo afora. Em 2014, uma escola militar em Peshawar, Paquistão, foi alvo de um ataque islamista que deixou mortos e feridos ceifando a vida de 132 estudantes. O movimento talibã paquistanês atacou 900 escolas entre 2009 e 2012, de acordo com um levantamento da ONG International Crisis Group. A ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai, conhecida por sua luta pela educação de meninas, foi baleada na cabeça pelo Talibã em Swat. O Boko Haram, responsável por inúmeros ataques na Nigéria, assumiu a responsabilidade pelo sequestro de 276 alunas do ensino médio em Chibok. Em um ataque desfechado por islamistas filiados à Al-Qaeda contra a Universidade Garissa do Quênia, a vida de 142 estudantes foi ceifada. Em Burkina Faso, mais de 2 mil escolas fecharam as portas.

Na França borbulha uma guerra de baixa intensidade cujo objetivo é radicalizar a educação. Embora muitos muçulmanos possam até não apoiar esse tipo de transformação, a presente campanha parece ter começado em 1989, durante o bicentenário da Revolução Francesa e a publicação francesa do romance “Os Versos Satânicos” de Salman Rushdie. Uma faculdade em Creil recusou a matrícula de três estudantes que estavam usando o véu islâmico. As autoridades francesas tentaram, por meio de diálogo e apaziguamento, colocar panos quentes. Em um apelo, no entanto, publicado pelo Le Nouvel Observateur, assinado pelos autores Alain Finkielkraut e Elisabeth Badinter e inúmeros intelectuais constam duras críticas à “Munique da escola republicana”.

A islamização na educação francesa está avançando a todo vapor. Em 1989, a palavra de ordem era: “professores, não vamos capitular!”. Desde então, alguns professores franceses que se recusaram a capitular pagaram com a vida.

Em outubro de 2020, Samuel Paty, francês, professor de história, foi decapitado por um terrorista checheno por ter cumprido seu trabalho: educar seus alunos a respeitarem os fundamentos das sociedades ocidentais e as palavras que constam nas portas da escola (Liberté, égalité, fraternité), por trocar ideias sobre a liberdade de expressão e mostrar a eles as caricaturas de Maomé da Charlie Hebdo.

“Convivência é uma fábula”, escreveu Alain Finkielkraut depois da decapitação de Paty; “os terrenos perdidos da República são os terrenos conquistados pelo ódio à França. Olhos se abriram, as evidências não podem mais ser escondidas”.

Outro professor foi ameaçado fisicamente na Escola Battières em Lyon, onde Samuel Paty iniciou sua carreira. Esse professor de história e geografia tinha dado uma aula sobre liberdade de expressão, de acordo com o currículo escolar, a uma turma da quinta série. Ele disse, entre outras coisas, que Emmanuel Macron não é “islamofóbico”. O pai de um aluno foi conversar com o professor, confrontando-o verbalmente na frente de testemunhas. “Ele não tinha papas na língua e foi bastante intempestivo. O professor não teve permissão para falar sobre o caso em sala de aula”, ressaltou uma testemunha. Chocado, o professor foi afastado por licença médica e convidado a mudar de escola.

Em uma escola de ensino médio em Caluire-et-Cuire, perto de Lyon, um estudante ameaçou “cortar a cabeça” de um professor. Em Gisors, uma menina distribuiu uma foto da decapitação de Paty aos seus colegas. Em Albertville, Savoy, a polícia teve que reunir quatro crianças de dez anos de idade e seus pais porque eles disseram na sala de aula que “o professor merecia morrer”. Em Grenoble, um extremista muçulmano foi preso por ameaçar decapitar Laurent, um professor de história e geografia que costuma aparecer em um reality show na TV. “Eu vou te decapitar” disse ele. Ao que tudo indica ele estava montando um vídeo em homenagem a Paty. Na Escola Pierre Mendès France em Saumur, um estudante disse ao seu professor: “meu pai vai te decapitar”.

Tornou-se impraticável fazer uma lista com dados precisos sobre estes incidentes. Eles ocorrem todos os dias na França.

Um novo levantamento revela o grau da autocensura entre os professores franceses. Para evitar incidentes em potencial, um em cada dois professores admite fazer uso da autocensura em sala de aula. Por meio do medo, do terror e da intimidação, o islamismo está colhendo o que plantou.

“Como Deixamos o Islamismo Entrar na Escola” é o título do novo livro de Jean-Pierre Obin sobre a ascensão do islamismo nas escolas francesas. Obin, ex-inspetor geral da educação nacional, coordenou em 2004 um estudo sobre manifestações de filiação religiosa nas escolas. Este não foi o primeiro estudo de um especialista francês em educação. Bernard Ravet foi durante 15 anos o diretor de três das escolas mais problemáticas de Marselha. Em seu livro: “Diretor de Faculdade ou Imã da República?”, Ravet salientou:

“por mais de dez anos o fanatismo bate à porta de dezenas de estabelecimentos…. Vem se empenhando em abocanhar o território físico da República, centímetro a centímetro, impondo os seus símbolos e alegorias”,

Em 2006 o filósofo francês Robert Redeker escreveu o seguinte:

“o Islã procura impor suas regras à Europa: abertura de piscinas em determinados horários exclusivamente para mulheres, proibição de caricaturas sobre esta religião, exigência de alimentos especiais para crianças muçulmanas, lutar pelo uso do véu nas escolas, acusar espíritos livres de Islamofobia.”

O título em sua coluna no Le Figaro dizia: “diante da intimidação islamista, o que deveria o mundo livre fazer?” Poucos dias depois, Redeker começou a receber ameaças de morte. “Não consigo trabalhar e sou obrigado a me esconder”, ressaltou Redeker. “De modo que, de um jeito ou de outro, os islamistas conseguiram me punir no território da república como se eu fosse culpado de um crime de opinião”.

Deveríamos ter dado mais atenção ao primeiro incidente. Foi o primeiro de uma longa série de ataques a professores e escolas francesas. Quatorze anos depois, Samuel Paty pagou com a sua vida, um professor universitário já se encontra sob proteção policial e outro teve que pedir demissão da sua escola devido às ameaças. Se os extremistas conseguiram intimidar escolas e universidades da França, por que não conseguiriam colocar de joelhos toda a sociedade?

Giulio Meotti, Editor Cultural do diário Il Foglio, é jornalista e escritor italiano.

Tradução: Joseph Skilnik.

Fonte: gatestoneinstitute

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