A renovação do acordo entre o Vaticano e a China: Desastre Político, Moral e Religioso

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Passados dois anos da realização desse Acordo provisório, seu prazo de validade chegou ao fim em 22 de setembro de 2020. Há opiniões favoráveis e contrárias à sua renovação. Até hoje o texto do Acordo assinado em 2018 permanece secreto. Entretanto, a experiência acumulada nos dois anos já transcorridos vem se somar a um conjunto robusto de razões que nos levam a considerá-lo como desastroso para a Igreja Católica do ponto de vista político, moral e religioso.

Com efeito, o governo dos Estados Unidos, através de seu Secretário de Estado, Mike Pompeo, pediu que a Santa Sé não renove o Acordo provisório que trata da indicação dos bispos pelo regime comunista. A esperança de uma melhora na situação dos católicos chineses desapareceu, por causa da repressão promovida pelas autoridades comunistas. E Pompeo alertou, em seu Twitter, que o Vaticano põe em risco sua autoridade moral se renovar o Acordo.

O chefe da diplomacia norte-americana observou ainda que os católicos se encontram entre os que mais lutam pelos direitos humanos em Hong Kong, entre os quais se destacam Martin Lee e Jimmy Lai Apple que, no entanto, foram vigiados, assediados e presos pelos comunistas, pelo “crime” de promover a liberdade. Pompeo insistiu: “O Vaticano deveria apoiar os católicos e o povo de Hong Kong”. Não é esta, infelizmente, a atitude dos altos prelados vaticanos, que preferem promover uma política favorecedora do imperialismo chinês e sua governança comunista.

Como se sabe, é dolorosa e complexa a situação dos 12 milhões de católicos na China, divididos entre os que seguem a Associação Patriótica Católica Chinesa, criada pelo governo para constituir uma Igreja autônoma em relação a Roma, e os fieis ao Vaticano, que desde 1950 entraram numa vida clandestina e subterrânea, mantendo com heroísmo sua fé. A partir de 2007 o Vaticano passou a reconhecer alguns bispos cismáticos da Associação Patriótica, e desde o Acordo de 2018, os comunistas começaram a indicar a Roma os bispos chineses a serem sagrados, no intuito consensual de formar uma única Igreja na China sob o bafejo comunista.

O Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, afirma que é preciso “normalizar a vida da Igreja Católica na China para que possa ter relações com a Santa Sé e o Papa”. Mas nos dois anos de vigência do Acordo o que se viu foi o prosseguimento da campanha de demolição de cruzes e de igrejas promovida pelo governo comunista, a proibição de entrada nas igrejas de menores de 18 anos e outras medidas persecutórias. Nos últimos meses a diocese católica de Hong Kong e o próprio Vaticano foram alvos dos ataques de hackers que são agentes chineses, noticiou o “New York Times”. A este respeito as autoridades vaticanas nada comentaram e preferiram apostar na renovação do Acordo.

O Vaticano parece não ver a realidade dessa cruel repressão: igrejas e cruzes destruídas e demolidas, bíblias queimadas, propriedades confiscadas, fiéis obrigados a renunciar a sua fé, religiosos encarcerados ou desaparecidos, proibição da educação religiosa para menores, exclusão social dos fiéis. Conforme documentou a mídia especializada Bitter Winter, fabricantes de imagens religiosas foram perseguidos, igrejas protestantes destruídas e membros da Igreja do Deus Todo poderoso foram brutalmente torturados por causa de sua fé protestante. A lei chinesa obriga as religiões a falarem em suas cerimônias sobre os documentos do Partido Comunista Chinês, as atividades do ditador Xi Jinping, e a exibirem estátuas e retratos dele nos templos.

É de se temer pelas consequências da renovação desse Acordo para os católicos chineses e para a própria Santa Sé. A experiência da Concordata da Igreja com o nazismo é um triste precedente. Hitler venceu as eleições gerais em 1933 e convidou Franz von Papen, o líder do Partido Central Católico, para ser o seu vice-chanceler. Enviou-o a Roma para iniciar negociações com a Santa Sé. Mesmo depois de assinada, as associações de jovens católicos foram forçadas a aderir à associação de jovens nazistas; o crucifixo foi banido das escolas, as crianças de famílias católicas foram forçadas a estudar em escolas nazistas. Mais de cem padres foram presos por criticarem o nazismo.

Em 1937, Pio XI publicou a sua encíclica “Mit brennender Sorge”, condenando as violações da Concordata. O acordo confundiu os fiéis, levou-os a aceitar o domínio nazista na Alemanha, enfraqueceu a autoridade da Santa Sé e levou muitos a pensarem que a Igreja era aliada do nazismo. O historiador Fritz Stern afirmou: “Hitler tinha mais do que uma razão para estar satisfeito. A concordata foi o seu primeiro acordo internacional, o que aumentou a sua respeitabilidade na Alemanha e no estrangeiro. Uma grande autoridade moral tinha confiado nas suas palavras.”[1]

A vantagem política auferida pelo ditador Xi Jinping com o apoio que lhe dá o Papa Francisco é evidente, e resulta no aumento de seu prestígio na China e no mundo inteiro. Os católicos chineses é que pagam a conta dessa tragédia. Se avançarem as negociações no sentido de formalização de relações diplomáticas da China com a Santa Sé, a próxima vítima será Taiwan e os católicos que nela habitam. O Vaticano é o único país europeu a reconhecer Taiwan, que será sacrificada se e quando as relações entre ambos forem “normalizadas”, isto é, quando o dragão engolir a cruz.

“Global Times”, o tabloide chinês em língua inglesa patrocinado pelo Partido Comunista Chinês, elogiou a atitude de eclesiásticos “otimistas”, favoráveis ao Acordo. Um deles é o bispo argentino Sanchez Sorondo, Chanceler da Pontifícia Academia de Ciências, que definiu a China como “o lugar onde a doutrina social da Igreja é melhor realizada”, e é favorável a renovar o Acordo “uma vez que a experiência inicial correu bem”.[2]

Será mesmo que a opinião do otimista Mons. Sanchez Sorondo é objetiva? A agência de notícias Asia News fez uma pesquisa entre bispos, padres e fiéis leigos na China, pedindo-lhes que contassem como a vida das suas comunidades mudou e como a sua fé foi vivida após o Acordo. E estampou alguns desses testemunhos.

O leigo João, de Xangai, exprime o desconforto de ver a bandeira chinesa comunista do lado de fora ou na torre de edifícios cristãos, pois gostaria de também ver bandeiras religiosas, como a da Santa Sé ou a da paróquia.

Maria, do norte da China, elenca uma série de medidas de controle implantadas pelo governo nas comunidades, como a proibição de dar educação religiosa aos jovens com menos de 18 anos. Diz ainda que uma coisa é certa: com o Acordo, não melhorou a situação dos fieis.

O Padre Francisco, sacerdote, do nordeste da China, apresenta as dificuldades atuais da religião, porquanto a repressão contra as comunidades cristãs, tanto oficiais como clandestinas, tem crescido. Sacerdotes são submetidos a cursos de formação governamentais; o clero da Igreja clandestina é aprisionado ou sequestrado para ser convencido a aderir à Associação Patriótica. Aulas de catecismo são fechadas; menores retirados das igrejas; edifícios sagrados em construção bloqueados ou fechados. E conclui que “a Igreja subterrânea e a sua fé enfrentam as maiores dificuldades”.

Teresa, uma leiga do sudeste do país, assinala como é aplicada sistematicamente a proibição aos menores de 18 anos de não participarem da missa e do catecismo. Edifícios sagrados que já receberam autorização de construção são bloqueados e fechados, ou cortadas a eletricidade e a água para impedir a sua utilização. Segundo ela, as políticas religiosas do governo “não afrouxaram, na verdade pressionam ainda mais”.

Para Paulo, do sul da China, a situação da Igreja subterrânea é cada vez mais crítica, os locais de oração da paróquia foram fechados, a celebração pública da missa dominical já nem sequer é permitida, os padres celebram a missa em privado na casa de alguns fiéis e restringem o número dos presentes. Quanto à Igreja oficial, em que Paulo participa, a situação não parece ser muito diferente.

Benedito, jovem leigo, membro de comunidade clandestina do norte da China, relata as dificuldades que surgiram após a assinatura do Acordo. E suplica: “Peço ao Santo Padre que não renove o Acordo com a China, porque isto poderia ameaçar a sobrevivência da Igreja na China, conduzindo-nos no caminho do desespero”.

O padre João, do norte da China, compreendeu a misericórdia do Papa Francisco para com os bispos e sacerdotes oficiais. O ponto crítico é que o Papa talvez tenha subestimado a ânsia de poder de alguns, a sua vontade de ter o controle total da Igreja. A repressão também aumentou em relação a outras religiões, especialmente os protestantes. Assinala que também há funcionários governamentais que, seguindo a sua consciência, garantem a liberdade às comunidades, arriscando-se muito.

O padre Domingos, do norte da China, dá o seu testemunho: o católico não pode ser funcionário público; o cristão não pode se alistar no exército. Universidades proíbem os estudantes de irem à missa aos domingos. Há proibição absoluta para os membros do Partido de praticarem qualquer religião. E enumera muitos outros aspectos do controle das igrejas, como: o governo pede às igrejas que instalem câmaras e as liguem à rede do sistema de segurança pública.

Os fiéis foram convidados a registrar os seus dados pessoais, tais como nome e sobrenome, número da cédula de identidade, sexo, idade, etnia, nível de educação, endereço de residência etc. O partido e o governo descobriram então que o número de pessoas católicas ou protestantes ultrapassou largamente o número de membros do partido. Isto causou grande preocupação aos comunistas.

Nos lugares religiosos, durante o cerimonial obrigatório das “Quatro Entradas”, deve ser trazida a bandeira chinesa, destacados os valores centrais do socialismo e os princípios democráticos, e feita advertência contra a infiltração de poderes religiosos estrangeiros. Para o padre Domingos, estas são algumas das formas pelas quais o Partido se defende contra o crescimento dos cristãos na China.

Posto diante desse quadro de concessões vaticanas às autoridades comunistas, para o católico chinês surge uma dolorosa questão de consciência. Deve ele se submeter aos bispos da Associação Patriótica ou que a ela aderiram? Deve aceitar a “normalização” imposta pelo Vaticano? Em outras palavras, é lícito resistir ao Acordo? Ou é um dever religioso cessar a resistência ao comunismo?

Plinio Corrêa de Oliveira, em célebre manifesto que versava sobre tema similar, publicado em 1974, afirmou categoricamente: “Cessar a luta, não o podemos. E é por imperativo de nossa consciência de católicos que não o podemos. Pois se é dever de todo católico promover o bem e combater o mal, nossa consciência nos impõe que defendamos a doutrina tradicional da Igreja, e combatamos a doutrina comunista.”[3]

Assim, a respeitosa e enérgica atitude de resistência de São Paulo em face de São Pedro (Gal. II, 11) continua a ser a legítima defesa de nossas consciências de católicos, ante uma agenda diplomática vaticana que nos torna irrespirável o ar e impraticável a fé.

Notas:

[1] Fritz Stern, “Dreams and Delusions: The Drama of German History” (New Haven: Yale University Press, 1999), 169.

[2] Agência de notícias AsiaNews.it – “Global Times: Ottimismo cieco sul rinnovo dell’accordo Cina-Vaticano”

[3] “A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas — Para a TFP: omitir-se? Ou resistir?” “Folha de S. Paulo”, 10 de abril de 1974.

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