Mentira e engano na “Teoria e Ciência da Guerra” de Putin

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A guerra da informação na era digital

O general Alexander Vladimirov ensina “Teoria e Ciência da Guerra” numa escola de cadetes em um subúrbio de Moscou. Ele é vice-presidente do Colégio de Especialistas Militares da Rússia e uma autoridade da maskirovka, sinal distintivo da estratégia de guerra russa.

Maskirovka se traduz como “algo mascarado” ou “pequeno baile de máscaras”.

“Toda a história humana pode ser apresentada como a história da enganação”, explica Vladimirov.

Alexander Vladimirov apresenta seu livro ‘Teoria Geral da Guerra’. Russian International Affaires Council. Moscou 15-04-2014.

Sun Tzu descreveu a guerra como um sendeiro infinito de astúcia. Mas a Rússia se orgulha de ter aprimorado essas técnicas até a perfeição, diz a jornalista Lucy Ash em longa reportagem para a BBC, reproduzida por “La Nación” de Buenos Aires.

Vladimirov exemplifica com a operação Jassy-Kishinev, de agosto 1944, que engajou dezenas de tanques de mentira. Na II Guerra – diz ele – da parte russa “houve exemplos colossais de maskirovka que envolveram milhares de tanques e tropas”.

A surpresa é o ingrediente chave de maskirovka, e as forças clandestinas que ocuparam a Crimeia deram prova disso.

Caminhões militares sem identificação, cheios de homens armados e sem insígnias, apelidados “pequenos homens verdes”, chegaram na madrugada como por um ato de magia.

Agora é público e notório que eram membros das forças especiais russas. Mas quando apareceram quem os denunciava era tido como exagerado pela mídia ocidental.

A negação da verdade, ou a mentira deslavada, é outro componente vital da maskirovka.

Em uma conferência de imprensa poucos dias após a entrada na Crimeia, Vladimir Putin eludiu com maestria e impassibilidade as perguntas mais incômodas sobre a origem das tropas invasoras.

Ele falou de homens pertencentes a unidades de autodefesa locais. E cinco semanas depois, após a anexação, glorificou o operativo das tropas russas na Crimeia, não se incomodando com a contradição ovante. A mentira já tinha produzido seu retorno e ponto final.

O general Gordon “Skip” Davis, responsável pelas operações de inteligência no Comando da OTAN na Bélgica, admite que ele e seus colegas levaram tempo para se darem conta “do tamanho e da escala” da chegada de tropas, “continuamente negada pelos russos”.

Os ‘pequenos homens verdes’ do Kremlin que invadiram a Criméia: a mídia ocidental insistiu em que não se sabia de onde vinham, quando as evidências primárias apontavam serem soldados russos. Os fatos confirmaram a evidência. Mas a mídia não se imutou.


Mas a historiadora e jornalista de família hebraica polonesa Anne Applebaum não caiu no conto. “Eu entendi imediatamente o que estava acontecendo, pois me lembrei de 1945. Para mim foi um fato muito familiar”, disse ela à BBC.

Na Crimeia “eles fizeram o que fez o Comissariado do Povo para Assuntos Internos (NKVD, antecessor da KGB) na Polônia depois da guerra. Também criaram entidades políticas falsas das quais ninguém tinha ouvido falar, com ideologias falsas… era cortina de fumaça”.

No leste da Ucrânia oficialmente não havia tropas russas ou “pequenos homens verdes”, mas apenas “voluntários patriotas” que estavam de férias. Hoje a presença de tropas de Moscou no conflito é evidente.

Em agosto, a mídia mundial transmitiu a “operação humanitária” de imensas colunas de caminhões brancos que violavam a fronteira ucraniana levando “água e alimentos para bebês”.

O general Davis disse que é “um maravilhoso exemplo de maskirovka”. Pois enquanto as atenções estavam nos caminhões brancos, em “todos os outros pontos de fronteira controlados pelos russos estavam passando equipamentos e tropas”.

O comboio “humanitário” foi “distração” engenhosa para a qual a mídia contribuiu possantemente.

Um dos golpes mais assustadores foi dado por uma TV de Moscou. É a história de um menino de três anos de Sloviansk, no leste separatista, que teria sido crucificado porque falava russo.

A reportagem ainda está online. Uma mulher loura, cuja voz treme de emoção, conta como a criancinha foi pregada num madeiro e agonizou até morrer.

A “mãe” alega que a criança foi amarrada a um tanque e arrastada pelas ruas até morrer. E acrescenta que agora sua vida corre perigo por causa dos soldados ucranianos brutos e fascistas, mas que ela arrisca sua vida para poupar a dor a outras mães.

Outra mulher diz que testemunhou o crime e cita o nome da praça onde ele aconteceu. Só que a praça não existe.

Soube-se depois que a mulher testemunha tinha um longo histórico de denúncias falsas na polícia e os pais dela acham que ela é paga para fazer isso.

A TV e o mundo digital estão repletos desse tipo de reportagens, com sites contando as histórias mais mirabolantes e as façanhas mais extraordinárias de Vladimir Putin.

“A estratégia russa, fora e dentro do país, é dizer que a verdade não existe”, explicou à BBC Peter Pomerantsev, que passou vários anos trabalhando em documentários e reality shows para a TV russa.

Tanta mentira promove um niilismo sedutor. Como quem diz: “Todo mundo é ruim, por que então não ser também um pouco corrupto?”

“É um tipo de cinismo que tem muito eco no Ocidente, em nossa época pela falta de confiança generalizada… e os russos confiam nesse cinismo e o usam num contexto militar”.

Há uma década, Andrei Kurkov escreveu em um de seus livros os eventos na Ucrânia: “Putin é um dos personagens principais. Promete ao presidente ucraniano que anexará a Crimeia e cortará o fornecimento de gás e outras coisas que se tornaram realidade”. Por isso o livro foi proibido.

Mas ele acha que não é tão difícil montar essa ficção. “Quando a gente vive num mundo que não é muito lógico, quando reina a lógica do absurdo, é até assaz simples”.

E fica bem mais fácil ainda com o macrocapitalismo publicitário ocidental fingindo acreditar e ecoando os absurdos espalhados pela propaganda russa.

Exemplos da guerra russa falsificando a informação:

Fonte: flagelorusso.blogspot.com

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